terça-feira, 6 de agosto de 2013

Capítulo 2: Um Milagre na Sétima Avenida

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Um Milagre na
Sétima Avenida

No verão oriental, o sol incandescente empola as calçadas e a intensa umidade faz com que o suor brote do seu corpo segundos depois de sair do chuveiro. Nem mesmo um traço de brisa perturba a sufocante fumaça. Os homens do tempo locais, tentando levitar, anunciam, “Está tão úmido hoje que vocês vão ter que torcer o ar antes de respirar!”
                Em um dia opressivamente quente como este foi que em 9 de Agosto de 1963, Cissy Houston entrou em trabalho de parto. Seu marido, John, a levou para o hospital, depois esperou na “sala dos pais” enquanto Cissy tentava se acomodar na friagem de seu próprio quarto. Ela estava assistindo televisão (e cronometrando suas contrações) quando a popular série de TV Hazel reluziu na tela. A estrela da série era a irresistível Shirley Booth, mas a segunda protagonista, Whitney Blake, atraiu e prendeu a atenção de Cissy. Ela era legal, elegante, sofisticada e inteligente. Ali e naquele momento, Cissy decidiu que se seu baby fosse uma menina, ela a chamaria de Whitney – e pediria a Deus que ela crescesse e fosse tão bem sucedida quanto sua homônima.  Algumas horas depois Whitney Elizabeth Houston fez sua estréia. O poder de seus robustos pulmõezinhos parecia predizer o seu destino.
                Cissy sempre achou que seu próprio destino fora predeterminado e que ela de alguma forma entraria bailando no super estrelato como cantora gospel. Ela havia crescido cercada por música e não se lembrava de um momento em que não cantasse. Uma de cinco crianças, seu nome de nascimento era Emily Drinkard, mas a família e os amigos sempre a chamaram de Cissy. Seus pais encorajavam todos os filhos a cantarem, então eles criaram seu próprio grupo, the Drinkard Singers, e se apresentavam em igrejas diferentes todos os fins de semana.  Eles também faziam um pouco de backing vocals e gravaram algumas canções tanto para a RCA quanto para a gravadora Savoy Records. Mas não estavam fazendo dinheiro suficiente para abandonar seus empregos, e toda a família teve de trabalhar para se sustentar.
                Cissy foi casada, breve e desastrosamente, e deu à luz um filho, Gary.  Nada se sabe acerca dessa união prematura, e até hoje Cissy se recusa a comentar. Mas deve ter sido bem ruim porque ela excomungou os homens e o casamento e passou a dedicar-se integralmente à música. Ela era uma jovem mulher no final dos anos cinqüenta, uma época de empolgante mudança e revolução. O movimento dos direitos civis estava à porta, mas o que mais motivava Cissy era que as ondas de rádio estavam cheias de discos feitos por artistas negros – muitos deles mulheres negras!
                Ela sentia que sua hora havia finalmente chegado, e ela mergulhou de cabeça em sua carreira. Ela formou um outro grupo, the Drinkard Sisters, com sua irmã Marie, sua prima Lee Warrick Drinkard, e as duas irmãs de Lee, Marie Dionne e Dee Dee Warrick. A estrela bem-sucedida deste modesto pequeno grupo de cantoras foi Marie Dionne, que deixou seu primeiro nome, mudou a grafia do sobrenome, e tentou fazer carreira solo como Dionne Warwick. Ela prosperaria muito além de suas melhores expectativas.
                Cissy Houston continuou cantando como backup para muitos outros grupos, mas nunca se tornou a grande estrela que sentia que deveria ser. Entra John Houston, um cantor carismático e bonitão de outrora, de Trenton, New Jersey, que encheu a cabeça de Cissy com promessas de fortuna e fama. Ele cria sinceramente que ela se tornaria uma mega star e a convenceu a não só deixá-lo agenciar sua carreira, como também a casar-se com ele. Ele deve ter sido um sedutor do inferno, dada a desconfiança de Cissy nos homens e em casamento, mas ele a convenceu e eles se casaram.
                O filho de Cissy, Gary, morava com eles, é claro, e logo tiveram outro filho, Michael, seguido poucos anos depois pela pequena Whitney Elizabeth. Cissy continuou cantando em turnês onde quer que conseguisse ao longo das duas gravidezes, e quando os bebês nasciam, ela os deixava com John ou membros da família e obstinadamente perseguia seu sonho com o estrelato.
                 Sua sobrinha, Dionne Warwick, havia sido descoberta por Burt Bacharach e assinado contrato com a gravadora Scepter Records. Os próximos poucos anos a viram emplacar hits nas paradas com melodias memoráveis tais como “Don’t Make Me Over,” “Alfie,” “I Say a Little Prayer for You,” “Message to Michael,” e “Do You Know the Way to San Jose?”
                Cissy sempre acreditou que ela tivesse uma voz bem melhor que qualquer das mulheres com quem cantou ao longo dos primeiros anos e fervia de raiva por dentro por ninguém mais reconhecer isso.
                O sucesso de Dionne fez Cissy mais determinada que nunca a tornar-se uma superstar por seus próprios méritos. E com seu marido encorajando-a, impulsionando-a, agendando shows, bem como sessões em estúdios, ela sabia que era apenas uma questão de tempo até tornar-se essa sensação que ela já sabia que era. 
                Não aconteceu.
                Os anos sessenta foram uma época de conflitos raciais na maior parte dos Estados Unidos, e Newark virou um campo de batalha de ódio e violência. Em 1967, um motim resultou em dezenas de mortos, centenas de feridos, e culminou em incêndios que reduziram boa parte de Newark a cascalhos. A família Houston se mantinha unida em seu pequeno apartamento, assistindo a aterrorizante destruição pela televisão. Quando as chamas cessaram, estimou-se que os danos materiais somavam bem mais que 10 milhões de dólares.
                 John Houston agiu rapidamente. Alguns edifícios ainda estavam ardendo quando ele pegou sua família e mudou-se para o mais distante que suas posses o permitiam, para o subúrbio de East Orange. Esta era uma vizinhança de classe média e mestiça, paraíso comparado às ruas desprezíveis dos conjuntos onde Whitney havia nascido. Era também mais caro, e Cissy pegou a estrada novamente, desta vez com um grupo formado em 1965, chamado Cissy’s Girls. Elas ainda eram cantoras de apoio (gravando background vocals), para grandes artistas tais como Dusty Springfield, Leslie Uggams, Connie Francis, Buddy Rich, Wilson Pickett, e a própria sobrinha de Cissy, Dionne Warwick.
                Cissy’s Girls eram boas e portanto em constante procura, contudo eram muito mal pagas em relação a sua contribuição musical, o que corroia seus egos – especialmente o de Cissy. Ela ainda acreditava que sua voz era superior a de qualquer outra cantora no mercado, e se desgastava pra ser reconhecida. Ela queria ser a da frente, agarrando aquele microfone, e fazendo seu showzinho no palco até ouvir gritos e assovios de admiração. A função de uma cantora de backup é fazer a estrela sair-se bem, e Cissy não digeria isso muito bem. “Era frustrante ver outra pessoa receber toda a glória pelo nosso trabalho,” ela dizia.
                John concordava. Era hora de dar um passo maior. Entre 1965 e 1967, Cissy’s Girls fez backup para algumas das gravações de Aretha Franklin, e o produtor Jerry Wexler ficou impressionado. “Elas eram verdadeiramente inspiradoras,” ele disse, “suas vozes tão puras como anjos.” Então em junho de 1967 ele renomeou Cissy’s Girls de Sweet Inspirations e assinou com elas um contrato com a gravadora Atlantic Records. Seu primeiro álbum, apropriadamente entitulado Sweet Inspiration, produziu um single que entrou na parada dos 20 Mais Executados, e Cissy pensou que desta vez com certeza ela estava no caminho direto para o topo.
                Nos próximos dois anos as Sweet Inspirations saíram em turnê com Aretha Franklin e finalmente conquistaram o sucesso por seus próprios méritos. Em 1968 elas cantaram backup para Elvis Presley e suas estrelas brilharam ainda mais. Era uma época inebriante para Cissy e John, à medida que sentiam que seu sonho estava prestes a se tornar realidade.  Cissy estava quase sempre em uma sessão de estúdio, e ela começou a levar Whitney com ela.
                Aretha Franklin se lembra de tê-la conhecido quando ainda tinha cerca de cinco anos de idade. “Ela estava sempre lá, na minha frente,” contou a Jeffrey Bowman, autor de Diva. “Eu a adorava. Ela queria cantar. Eu já sabia mesmo naquela época. Ela estava sempre prestando bastante atenção, cochichando para sua mãe. Ela tinha muita personalidade. Ela cantava no canto, sempre cantarolando para si mesma, tentando imitar os sons que estava ouvindo. Ela dizia, ‘Quero ser uma Sweet Inspiration também.’ ”
                Cissy era uma mãe severa e insistia em total obediência de seus filhos, mas quando trazia Whitney para as gravações em estúdio, a garotinha simplesmente não conseguia ficar parada. Ela cantarolava ou cantava junto com os artistas, gingando ao som das músicas, tentando combiná-las nota por nota, até que sua mãe a removesse fisicamente do estúdio.
                Whitney era linda, muito mais que qualquer garotinha de sua vizinhança. Ela não era tão escura como seus parentes ou amigos. Sua pele era suave e cremosa, quase como se uma colher de chá de calda de chocolate fosse derramada em um copo de leite. Seus olhos eram grandes e luminosos, ligeiramente amendoados, dando a ela um ar exótico e misterioso. Ela nunca passou pela fase desastrada/desajeitada que assola a maioria dos adolescentes – ela simplesmente se transformou de adolescente em uma jovem deslumbrante.
                Whitney tinha doze anos de idade quando sua mãe finalmente se rendeu aos seus apelos para cantar no palco e providenciou que Whitney fizesse um solo na igreja New Hope Baptist Church.  Cissy estava fora da cidade (como sempre) de forma que não estava lá para a estréia de sua filha, mas John estava. Ele sempre chamou sua garotinha de Nippy, um nome carinhoso especial só entre eles dois, embora logo outros membros da família e amigos chegados passaram a usar o nome também. Ele relatou mais tarde que a platéia ficou enlouquecida por sua Nippy, aplaudindo, assoviando, batendo os pés, quase matando a menina de susto, que ficou tremendo no palco. Levou vários minutos para que ela percebesse que eles não tinham a intenção de fazer-lhe nenhum mal – estavam apenas mostrando o seu amor e carinho. E Whitney envolveu-se nesse derramamento de puro amor e aceitação como a um cobertor aconchegante e acolhedor.
                Pela primeira vez em sua vida ela sentiu-se como se fizesse parte. Ela já tinha sido provocada e insultada por seus colegas de classe por causa de sua beleza exótica, sua pele clara, e seu jeito fresco. Sua mãe sempre a vestiu como se fosse uma princesinha, por isso enquanto as outras crianças da vizinhança brincavam nas ruas em jeans rasgados e camisetas sujas, Whitney usava vestidos engomados e sapatilhas brilhantes e tornozeleiras de babados.
                Em mais de uma ocasião ela voltou pra casa chorando, seu vestido rasgado e as fitas arrancadas do seu cabelo por meninas invejosas. Quando ela tentava se esconder atrás de sua mãe, Cissy a virava e mandava ela voltar e dar àquelas crianças a mesma “surra” que haviam dado nela.
                “Se você não se levantar por si mesma e mostrar a eles que não tem medo, nunca vão te deixar em paz,” Cissy dizia para a Whitney que soluçava. “E da próxima vez que te pegar correndo pra casa aos berros, eu mesma te dou uma surra para deixar de ser covarde!”
                Então Whitney aprendeu a dar o troco na mesma moeda, e como nunca fazia amigos, pelo menos conquistou um respeito rancoroso e pôde voltar pra casa em paz. Se ela achava que o primário tinha sido ruim, não foi nada comparado ao ginásio. Devido à inquietação racial que ainda existia no sistema escolar público, John e Cissy decidiram mandar Whitney para uma escola particular, Mount St. Dominic Academy em Caldwell, New Jersey -  uma escola católica só de meninas.
                Whitney conheceu a hostilidade e inveja desde o primeiro dia. Esta era a época da consciência negra e a palavra de ordem audaciosamente declarava “negro é lindo,” mas Whitney não era negra. Na verdade, ela era mais clara que a maioria das meninas caucasianas. Com suas maçãs do rosto altas, nariz afilado e estreito, olhos exóticos e amendoados, e lábios perfeitamente contornados, ela se destacava como uma rosa em um emaranhado de Artemísia.
                Por todo o sucesso de Cissy como cantora de backup (e foi impressionante por todos os anos sessenta e começo dos setenta) ela nunca se tornou uma estrela por si mesma.  Fama pessoal sempre pareceu tão perto, mas nunca se materializou.  Ela ficou ainda mais frustrada, irritada e infeliz – assim como John. Ele se culpava por não ter “feito acontecer” por sua esposa, e ela provavelmente concordava com ele. Afinal de contas, ela ainda acreditava que sua voz era de longe mais superior que a de qualquer outra cantora no planeta Terra. Talvez essa confiança de touro (ou presunção) fosse o seu problema, porque a popularidade das Sweet Inspirations começou a declinar em meados dos anos setenta e nunca mais recuperaram sua condição.
                Embora John ainda gerenciasse a carreira de Cissy e fosse paga uma percentagem por seu tempo e talento, eles nunca tiveram dinheiro suficiente que lhe permitisse abrir mão de seus empregos diurnos completamente. Quando a grana ficava curta, ele voltava às ruas de Newark como um trabalhador comum para poder arcar com as despesas. Onde outrora música e risos enchiam o apartamento, agora amargas brigas mandavam Michael e Whitney correndo para os seus quartos.
                 O casamento acabou em 1977 e John saiu de casa, deixando Nippy devastada e se sentindo abandonada e atordoada. Ela sempre foi a garotinha do papai e sentiu dolorosamente a sua falta. Para crédito de Cissy, ela tentou compensar a perda passando mais tempo com Whitney, levando-a consigo onde quer que fosse.
                Em 1978, Whitney fez quinze anos, uma linda menina-moça, alta, de pernas longas, com curvas esbeltas e o arrogante porte de uma jovem rainha. Sua timidez natural assim como sua solidão prematura a diferenciavam, dando a ela um ar de arrogância que era ao mesmo tempo intrigante e perturbador. Se alguém tentasse se aproximar dela, ela os detinha com um cauteloso e frio olhar de desdém.  
                Ela e sua mãe estavam em Nova Iorque um dia, observando a vista, descendo a Sétima Avenida, próximas ao Carnegie Hall, quando (assim como nos filmes) um caça-talentos da Click Models aproximou-se dela com um cartão. Whitney achou que não passasse de “conversa fiada,” mas Cissy quis conferir; isso poderia valer a pena. Ela levou Whitney à agencia naquela mesma tarde, e ela foi contratada ali mesmo. Dentro de semanas a jovem estava fazendo layouts para Mademoiselle, Seventeen, e outras revistas femininas tops. Alguns meses depois ela mudou para uma agencia bem maior, a internacionalmente conhecida Wilhelmina, e logo estava aparecendo nas páginas da Young Miss, Cosmopolitan, Glamour – assim como fazendo publicidade para a Sprite e Revlon cosméticos. Agora suas colegas de turma realmente tinham algo do que sentir inveja, e ela admite que o ginásio foi um inferno absoluto.
                Com John ausente e a carreira de Cissy escorregando, a mãe de Whitney tinha mais tempo para passar com seus filhos. Ela sempre esteve ao lado de Whitney durante os anos difíceis da adolescência. Um verão ela sugeriu que Whitney se candidatasse como voluntária para ser conselheira em um acampamento local para crianças, sem nunca sequer sonhar que a experiência mudaria sua vida para sempre.
                Whitney nunca tinha tido nenhuma amiga, então quando conheceu Robyn Crawford, outra conselheira do acampamento, ela ficou maravilhada com a conexão instantânea entre elas. As meninas rapidamente se tornaram inseparáveis. Robyn era dois anos mais velha que Whitney e ocupou facilmente o papel de irmã mais velha. Na verdade, elas diziam a todo mundo que elas eram irmãs, e onde quer que visse uma, lá estava a outra.
                Já foi reportado dezenas de vezes em outras publicações que a amizade entre Whitney e Robyn transformou-se em amor e resultou na primeira experiência sexual das duas. (Whitney nega enfaticamente qualquer alegação de que seja lésbica.) As crianças no acampamento provocavam-nas, chamando-as de “sapatões” e fazendo sons de beijos quando elas passavam, de braços dados e cabeças juntas em algum tipo de conversa intima e particular.
                Mas as duas garotas não pareciam se importar. Elas eram ambas jovens duronas e teimosas e sua relação era inconstante. Robyn não tinha inveja da beleza de Whitney. Ela é muito bonita também. Muito menos ficava intimidada com o talento musical de Whitney. Na verdade, ela encorajava Whitney a arriscar e ver quão longe sua beleza e talento a levariam.
                E Robyn estava ali ao seu lado a cada passo do caminho, animando-a a prosseguir. A amizade que teve início há dezesseis anos está mais forte que nunca. A ligação especial entre essas duas mulheres há muito tem alimentado o moinho de fofocas, mas nem mesmo os comentários mais cruéis conseguem separá-las.   


3 comentários:

Unknown disse...

A leitura está bem interessante, ansioso pelo próximo capítulo!

Marcello Amorim disse...

Fico feliz que esteja gostando. Saber que alguém está acompanhando me motiva mais a continuar traduzindo. Obrigado pela força! E se houver algum errinho, é só dizer que eu vou lá e conserto, tá? rs.

Unknown disse...

Estou adorando lê sobre a vida da minha idola, e muito bom saber um pouco sobre a vida de quem gostamos muito e temos uma grande admiração.