quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Capítulo 5: Entre Kevin Costner e Eddie Murphy

5

Entre Kevin Costner
e Eddie Murphy

Em 1988, Whitney Houston, aos vinte cinco anos, estava no topo do mundo. Ela se mudou para uma propriedade de $10 milhões de dólares e cinco acres em Mendham Township, Nova Jersey. Whitney parecia disposta a assumir o controle de sua vida, viver como desejasse sem ninguém tentando dizer a ela o que fazer – mais especificamente, sua mãe. Ela disse aos amigos que estava cansada da interferência constante de Cissy e reclamou que ela “ainda me trata como uma criança.”
                Ela também ficava irritada com a desaprovação explícita de Cissy em relação a Robyn Crawford. Cissy nunca gostou de Robyn, e agora que as duas estavam mais velhas e mais próximas que nunca, Cissy não conseguia ficar de boca calada. Em mais de uma ocasião ela disse a Whitney que ela precisava “livrar-se” de Robyn ou ela destruiria sua carreira, dizendo que não era “natural” que duas mulheres fossem tão próximas.
                Cissy sempre foi forte, dominadora, e formidável, mas Robyn também era – na verdade, amigos dizem que das três mulheres, Robyn era a mais dominadora. Whitney era forte, mas era fácil reconhecer quem era a que “mandava” naquela relação. O cargo de Robyn era “assistente pessoal,” mas em 1988 ela já tinha assumido o comando da carreira de Whitney, assumindo o lugar de Cissy. Amigos dizem que foi Robyn quem induziu Whitney a tomar as rédeas de sua vida. Quando Whitney comprou seu luxuoso imóvel e chamou Robyn para ir morar nele, Cissy ficou passada. Quando Cissy vinha de visita, ela era relegada a uma casa de hóspedes separada, embora um luxo com sauna, spa, e todas as comodidades. Mas ela queria ficar na casa principal com sua filha, ainda dizendo a ela o que fazer.
                Regina Brown, relações públicas de Whitney, me disse que Cissy e Robyn brigavam por Whitney. Whitney detestava ficar no meio, mas ela não estava disposta a desistir de Robyn por ninguém, nem mesmo sua mãe. Ela se retirava, na esperança de que as duas resolvessem isso, mas elas nunca resolveram. Pelo contrário, a aversão de Cissy por Robyn ficou mais forte com o passar dos anos.
                “Acho que Cissy pensava que comigo ali, ela teria uma aliada com Whitney,” Regina me disse, “porque foi através de Cissy que eu consegui o emprego, para começo de conversa.”
                Regina conheceu Cissy em 1986, quando Regina trabalhava em Chicago para a Habilative Systems, uma organização sem fins lucrativos, como consultora para captação de recursos. Ela aproximou-se de Cissy sobre fazer uma festa beneficente com Whitney e prometeu a Cissy que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para assegurar-lhe um contrato de gravação. “Eu estava jogando com ela,” Regina me disse, “porque queria chegar até Whitney, mas Cissy tem um ego tão grande, que caiu nessa. Ela ainda acha que sua voz é melhor que a de qualquer outro no mundo!”  
                Regina também tinha conseguido assinar com Luther Vandross, e a festa beneficente foi um enorme sucesso. Ela conseguiu alguns elogios calorosos nos jornais para Cissy, mas nenhum contrato com uma gravadora. “Ninguém queria assinar com ela,” Regina disse. “Ela estava liquidada, mas parece que era a única que não sabia disso!”
                Isso não perturbou Regina. Ela insistiu na amizade com Cissy, e naquela época Cissy precisava de uma amiga para quem pudesse confidenciar seus problemas. Ela despejava seus sentimentos acerca de Robyn Crawford. Cissy estava triste com a súbita ostentação de independência de Whitney e com a forte influência de Robyn em sua vida. “Ela tentou de tudo para separá-las,” Regina disse, “mas finalmente encontrou uma rival à altura em Robyn. Ela era mais jovem, mais forte, e muito mais teimosa e determinada do que Cissy jamais sonhou ser possível.”
                À sugestão de Robyn, Whitney incorporou a si mesma, iniciando sua própria empresa, Nippy, Inc., e foi então que Cissy interferiu e tentou ganhar um pequeno ponto de apoio novamente. Ela disse a Whitney que ela precisava de uma pessoa que cuidasse de sua publicidade, não para conseguir publicidade, mas para evitar a má publicidade que vinha gerando. Whitney tinha sido vaiada em um show recente, e os fãs a estavam chamando de “vendida,” “convencida” e “uma diva arrogante.” Seus atrasos constantes, tanto nos shows quanto nas cerimônias públicas, não davam bom exemplo, especialmente porque ela nunca se desculpava ou mesmo se dava ao trabalho de dar uma desculpa. Ela dava de ombros e dizia, “Coisas acontecem.”
                “Havia muito tumulto acontecendo na vida pessoal de Whitney,” Regina disse. “Ela estava brigando não só com sua mãe, como também com Robyn. Deus, o jeito como aquelas duas se atacavam, me deixava de cabelo em pé! Elas ficavam cara a cara e chegavam a partir para a força bruta. Robyn é extremamente ciumenta e as duas são controladoras, então, camarada, a bordoada estancava! Whitney é bem namoradeira quando quer ser e os caras estavam sempre correndo atrás dela, assim como muitas garotas, e isso deixava Robyn subindo pelas paredes. Então ela revidava dormindo com os dançarinos do grupo de Whitney. E daí Whitney pagava na mesma moeda, saindo num encontro bem público com algum cara. Fico surpresa que essas duas ainda não tenham se matado até agora.”
                Ninguém gostava da Robyn, mas todos ficavam intimidados com ela, dessa forma todos faziam de tudo para não incitar sua ira ou o descontentamento de Whitney. Um exemplo perfeito é a vez em que Robyn proibiu Regina de viajar com Whitney para a Europa, dizendo a ela, “Se você for, você não volta viva!” Regina ficou horrorizada e contou a Whitney o que Robyn tinha dito, mas Whitney respondeu que Regina não deveria preocupar-se com “as ameaças de Robyn. Elas não significam nada, querida.”
                “Whitney insistiu que eu fosse junto na viagem, então eu fui,” Regina me contou, “mas gostaria de não ter ido. Robyn me tratou como um pedaço de bosta a cada chance que encontrou. Quando voltamos aos Estados Unidos, eu pude entender bem os sentimentos de Cissy por Robyn. A mulher é uma louca! Ela não quer ninguém chegando perto de Whitney. Ela é possessiva e ciumenta desse jeito. Estávamos todos sentados um dia – havia uma sala cheia de gente ali, logo que voltamos da Europa, e Robyn do nada começou a brigar comigo, ameaçando me dar uma surra. Ela veio pra cima de mim com garras afiadas, mas algumas das pessoas na sala agarraram-na e detiveram-na. Eu olhei para Whitney e ela estava sentada, encostada na parede, com um sorrisinho no rosto, sem dizer uma só palavra. Robyn estava xingando e essas pessoas estavam segurando seus braços, tentando puxá-la pra longe de mim, e só então foi que Whitney finalmente interferiu. Ela gritou, ‘Tirem suas mãos da Robyn e nenhum de vocês jamais toque nela novamente!’ Todo mundo odiava aquela vadia.”
                O irmão de Whitney, Michael, uma vez reagiu ao mau tratamento de Robyn em relação a ele, pegando-a pelo pescoço e sufocando-a até cair em si. “Essa mulher é o diabo disfarçado,” Cissy dizia pra quem quisesse ouvir. “Se algum dia ela aparecer morta, todos nesse escritório vão ser suspeitos!”

                No Soul Train Music Awards de 1989, Whitney foi nomeada e ganhou por Melhor Álbum de uma Vocalista Feminina. Quando ela se levantou para ir ao palco, várias pessoas na platéia vaiaram e algumas gritaram, “Oreo!” Whitney ficou desorientada e seus passos vacilaram por um momento, então, erguendo seus ombros e com um sorriso largo no rosto, subiu afetadamente ao palco para aceitar o prêmio. Embora essa não tenha sido a primeira vez que foi vaiada, doeu e surpreendeu seus irmãos afro-americanos também a estarem vaiando. Quando ela ficou sabendo da nomeação, ela vibrou, achando que talvez agora os ativistas negros parassem de dizer que ela havia se vendido para o estabelecimento dos brancos. Ela achava suas críticas particularmente injustas já que ela tinha se apresentado em dezenas de eventos beneficentes e angariado milhões de dólares para o United Negro College Fund assim como outras muitas organizações negras.
                Ao final da premiação, a indignação de Whitney já tinha virado raiva, e ela disse aos repórteres que aguardavam, “Eles só estão com inveja. Eles simplesmente se enjoaram de mim e não queriam que eu ganhasse outro prêmio. Não, não te faz sentir-se bem. Eu não gosto e não prezo esse tipo de coisa, mas ignoro.” Em 1989, naturalmente, ela havia ganhado tantos prêmios que já tinha perdido as contas.
                Após receber seu prêmio, Whitney retornou ao seu assento ao lado de Robyn, ainda fumegando pela humilhação, quando a platéia irrompeu em aplausos para a próxima atração. Ela ergueu os olhos, ainda cheia de raiva, depois se ajeitou na cadeira enquanto as letras de “Don’t Be Cruel,” uma antiga canção de Elvis Presley enchia o enorme auditório. O rapaz no palco girava quase como Elvis costumava fazer e sua voz era doce e expressiva. Whitney olhou fixamente, como se dissesse, “Quem é esse?”
                Era obviamente o bad boy do R&B, Bobby Brown, um garoto de vinte e poucos anos dos conjuntos violentos e assolados pelas drogas, Orchard Park no bairro de Roxbury, em Boston. Ele era não só um símbolo sexual para todos os adolescentes marrentos que já haviam comprado um disco seu, como também estava se tornando um tremendo astro. Ela já tinha três discos de platina e seguidores leais na noite em que conheceu Whitney.
                Bobby Brown apareceu no cenário musical com o grupo de R&B, New Edition no início dos anos oitenta e com dezenove anos de idade já estava no topo das paradas com o seu próprio hit, “My Prerogative,” que o estabeleceu firmemente como símbolo sexual da geração chiclete. Ele também foi chamado de “atrevido” quando foi preso por simular sexo no palco. O produtor Teddy Riley, que trabalhou com Bobby em alguns de seus álbuns, disse a revista People, “Bobby e eu nos criamos nas ruas e temos um tanto de loucura. Quando eu conheci Whitney, pude ver que ela tinha um tanto de loucura também.”
                Quando Bobby e Whitney se conheceram na noite do Soul Train Music Awards, ele não se jogou pra cima dela, como a maioria dos homens fazia, o que a intrigou. Ela não estava acostumada a homens que se faziam de desinteressados, e ela deliberadamente decidiu conquistá-lo. Ela procurou Bobby depois do show e o convidou para uma festa, e apesar de ter aceitado o convite, foi com um espontâneo “Por que não? Não tenho nada melhor pra fazer.”
                As vaias de Whitney no Soul Train Music Awards aborreceram Clive Davis mais do que a sua obstinada estrela. Então ele começou a planejar seu terceiro álbum cuidadosamente. Ele estava cansado dos críticos dizerem que Whitney tinha um approach do tipo “pão branco” com a música, que ela era “homogeneizada,” e é claro o pior insulto, que ela era um “Oreo,” preta por fora, branca por dentro.
                Davis queria que o próximo disco de Whitney “chutasse alguns traseiros.” Ele tinha usado a publicidade de “bela, doce, pequena cantora gospel virginal, criada na igreja” no início, e tinha funcionado. Agora estava na hora de mostrar ao público que a gatinha tinha garras. Ele escolheu a maioria das canções de R&B e ainda jogou algumas de hip-hop também.
                Whitney já tinha posto na prateleira um número de prêmios, incluindo o de mais prestigio, o Grammy, dois anos seguidos, 1986 e 1987, por Melhor Desempenho Pop Feminino. No American Music Awards de 1988 ela ganhou mais dois prêmios, um por Single Favorito de Pop/Rock, com “I Wanna Dance With Somebody (Who Loves Me).” Os críticos acusaram-na de ser uma “mutação” no pop-rock, e se suas raízes eram em gospel e R&B, por que ela não provava? Entre receber prêmios e trabalhar em seu novo álbum, ela também estava na estrada, em turnê. Ela também estava trabalhando incansavelmente para várias instituições de caridade, numa tentativa de reconquistar o favor de seus fãs afro-americanos.
                Em fevereiro de 1990, a rede ABC de televisão homenageou Sammy Davis Jr., o mais famoso e talentoso artista negro a pisar nos palcos. Ele estava nos últimos estágios do câncer na garganta e morreria logo depois do tributo, mas naquela noite cravejada de estrelas, ele chorou abertamente quando Whitney cantou “The Greatest Love of All” especialmente para ele. Companheiro de Sammy de longa data, Frank Sinatra, foi visto enxugando uma lágrima de seus olhos também. Até mesmo o esquivo Michael Jackson apareceu no evento, e ainda o indisposto Bob Hope. Era uma noite da qual ninguém se esqueceria, especialmente Whitney. Se ela tinha alguma dúvida sobre ser aceita por seus iguais, ela soube naquela noite que era amada universalmente.

                O terceiro álbum de Whitney, I’m Your Baby Tonight, foi lançado no início do outono de 1990 e recebeu críticas mistas, com aquela pergunta insistente ainda pairando sobre sua cabeça: Whitney Houston é negra o bastante? Vestida de couro preto e montada numa enorme Harley-Davidson preta, Whitney encarava desafiadoramente da capa do disco, uma leve expressão labial, como se dissesse, “Agora estou negra o bastante?”
                O ídolo de longa data de Whitney, Stevie Wonder, produziu uma das canções no álbum, “We Didn’t Know,” ao passo que a canção título, “I’m Your Baby Tonight,” foi produzida por Babyface e L.A. Reid, e ninguém podia acusar esses homens de serem “homogeneizados!” A sensualidade crua e rigidez das bordas do novo álbum apresentavam a “nova, aperfeiçoada, amadurecida” Whitney Houston. E havia outra diferença também. Nos dois primeiros álbuns, o encarte continha agradecimentos a todos que Whitney sentia que tinham contribuído para o seu sucesso, produtores, empresários, assim como membros da família. Ela havia incluído Robyn Crawford como membro da família nesses dois primeiros, mas no terceiro, Robyn foi relacionada como associada empresarial. Os tempos estavam mudando.
               
                “I’m Your Baby Tonight” escalou consistentemente as paradas no outono de 1990 e eu ouvi isso dezenas de vezes. Fiquei impressionado com essa “nova” Whitney e nutri uma fantasia secreta de um dia conhecê-la. Meus irmãos e eu nunca desistimos do nosso sonho de nos tornarmos artistas e ainda continuávamos a ensaiar em todo momento livre que tínhamos. Eu calculei que se eu pudesse chegar perto de uma grande estrela, e dar a ela uma fita demo de nossas músicas, nós poderíamos ter uma chance.
                Em novembro daquele ano, eu estava trabalhando à noite na Sweetheart Cup Company como operador de empilhadeira e durante o dia no meu restaurante, Ammons & Lewis, e no meu salão de beleza, Billie Jean’s. Eu li nos jornais que Natalie Cole estaria se apresentando em Chicago no Drury Lane Theater, e estava determinado a conhecê-la e passar para ela uma cópia da minha fita dos Ammons Brothers. Eu tive a estranha sensação de que algo grande estava para acontecer comigo e de certa forma tinha ligação com Natalie Cole. Liguei para o teatro para perguntar como poderia conseguir alguns ingressos, mas disseram que era “um evento privado, não aberto ao público.”
                Eu devia ter simplesmente ter aceitado a resposta, mas senti que tinha que ir até lá. Meu destino parecia depender disso. Liguei novamente e insisti em falar com o gerente ou qualquer um que pudesse me ajudar. “Eu tenho que ir a essa apresentação,” eu disse a eles. Acho que tiveram pena de mim, porque disseram que me dariam o nome de alguém que possivelmente poderia me ajudar. A única pessoa que poderia era Regina Brown.
                  O telefone foi atendido secamente, “Regina Brown falando.”
            Eu me apresentei e estava dizendo a ela o que queria quando ela interrompeu, “Olha, não me importa quem você é – meu primo, meu pai, ou o maldito presidente dos Estados Unidos! Ninguém consegue ingressos para este show. Além do mais, você provavelmente nem conseguisse pagar por eles de qualquer maneira!”
                Isso foi como tremular uma bandeira vermelha na minha frente, me desafiando. Eu ganhava bem e não ligava de gastar. Eu a mantive no telefone até ela finalmente admitir que talvez me conseguisse alguns ingressos, mas que seriam cinqüenta dólares cada um, e depois acrescentou sarcasticamente, “E então, quantos você quer?”
                “Cinco,” respondi rispidamente. Eu a ouvi falando com outra pessoa na sala e rindo, sussurrando, “Esse cara está dizendo que quer cinco ingressos. ‘Tá certo!”
                “Mudei de ideia. Quero dez.”
              Depois de um silêncio do outro lado da linha, ela disse suavemente, “Dez? São quinhentos dólares.”
                “Eu sei contar, senhora. Agora, onde eu pego os ingressos?” Estava furioso com seu comportamento rude e nada profissional e planejava dizer isso a ela quando a visse pessoalmente.  Troquei minhas roupas, ficando bastante vistoso, depois fui de carro até a zona oeste de Chicago ao Habilative Systems. Estava tentando controlar meu temperamento enquanto pagava ao caixa pelos ingressos e pedi a ela que me apontasse Regina Brown.
                Ela estava sentada atrás de uma mesa do outro lado da sala. Ela era deslumbrante. Ela estava usando este chapeuzinho de veludo preto bonitinho por cima dos cabelos na altura dos ombros, e seus olhos eram grandes e redondos, sua pele tão macia quanto seda. Eu caminhei até ela e estendi meus dez ingressos e ela ficou me encarando por um minuto, até dizer rindo, “Oh, meu Deus – você é o cara no telefone!”
                “Está certa.” Eu dei a ela um cartão do meu salão de beleza.
                Ela o estudou por um momento, depois sorriu. “Billie Jean’s. Da música do Michael Jackson.”
                “Não. Dei esse nome por causa da minha irmãzinha.”
                Ela parecia um pouco vencida agora que havia percebido que eu não era um idiota qualquer, e ela perguntou do salão, preços e assim por diante, e o que eu achava do seu cabelo. Eu tirei o seu chapéu, passei meus dedos por seus cabelos, e disse a ela que ela podia dar uma retocada. “A primeira visita é por minha conta,” eu disse. “Vá em frente e marque uma hora.” Ela ligou, me olhando o tempo todo enquanto discava, e marcou para as dez na manhã seguinte.  
                Eu podia sentir algo acontecendo comigo, e naquele momento eu sentia que era uma premonição de que meu sonho de me tornar um artista estava prestes a tornar-se realidade. Minha motivação para continuar uma amizade com Regina era estritamente profissional, neste momento, porque eu senti que poderia chegar até Natalie Cole através dela. Eu não fazia ideia de que ela era relações públicas de Whitney Houston. Também admito que me senti fisicamente atraído por ela, mas era bem casado e tinha três filhos maravilhosos e não estava procurando mais ninguém.   
                Eu estava no salão na manhã seguinte quando Regina chegou e eu contei a ela a respeito das minhas ambições e sobre o Ammons Brothers Singing Group. Ela disse que tinha algumas conexões de peso no negócio da música, e que se eu estivesse realmente falando sério, ela estaria disposta a nos ouvir e ver se conseguiria uma participação pra nós no show da Natalie Cole. Tentando ser legal, eu saí saracoteando do salão, depois corri em casa e liguei para minha mãe para os meus irmãos, dando a eles a boa noticia. Nós ensaiamos a noite toda, e no dia seguinte eu fechei o restaurante e nós fizemos uma pequena apresentação para Regina. Ela ficou encantada. Ela disse que nós éramos fantásticos, e eu podia ver o entusiasmo em seu rosto. Ele passou a me ver com outros olhos.
                Depois de agradecer a todos e prometer que ia nos informar a respeito do show, ela enrolou seu braço no meu e disse, “Leve-me até o meu carro, querido.” Quando chegamos, ela jogou seus braços em volta de mim e me beijou – com vontade. Fiquei chocado e lisonjeado e confiante de que esse era o início do meu sonho tornando-se realidade. Ela havia me dado seu telefone de casa e endereço, então eu lhe enviei um bouquet de rosas e o maior urso de pelúcia branco que pude encontrar. No momento em que foram entregues, ela ligou e me convidou para ir ao seu apartamento aquela noite para um jantar e coquetéis. Para dizer a verdade, eu não sabia o que esperar, mas ninguém teria conseguido me impedir. Este era o meu encontro com o destino.
                Aquela noite eu me emperiquitei todo e fui para o centro da cidade.  Eu nunca tinha tido motivo para ir ao Downtown Loop antes porque era uma área pretensiosa, reservada aos muito ricos. Regina morava no East Randolph, e quando me aproximei do seu prédio, percebi Mercedes, Rolls-Royces, Porsches e BMWs estacionadas na rua. Eu estava dirigindo um Audi 5000-S, então não me senti tão deslocado quando estacionei perto de todos esses carros luxuosos. Do lado de dentro, contudo, eu estava uma pilha de nervos. Bem em frente ao apartamento de Regina estavam os hotéis mais famosos de Chicago – o Fairmont, Hyatt Regency, Swiss. Um porteiro em trajes de gala estava parado na entrada, e por um breve momento eu pensei que ele fosse me escorraçar dali e dizer para eu nunca mais voltar.
                Enquanto pegava o elevador para o andar de Regina, minha mente tumultuada, eu me perguntava o que ela teria em mente. Esperando por minha chegada, ela estava parada à porta com um sorriso de boas-vindas. Ela estava vestindo uma blusa branca com um macacão de tiras finas por baixo, que mostrava todas as curvas do seu corpo maduro.  Eu engoli em seco e ela riu e jogou seus braços ao redor de mim, me abraçando e pressionando o seu corpo contra o meu.
                Quando ela me puxou para dentro, eu notei uma parede coberta de fotos de Regina com Michael Jackson, Luther Vandross, Whitney Houston – assim como Cissy e John Houston – o grande Otis Wilson do Chicago Bears, Mike Tyson, e por aí vai. Minha mente estava se recuperando quando ela riu e disse, “Todo mundo no ramo da música conhece Regina Brown, querido!” Foi quando ela me contou que não só era amiga de Whitney Houston, como também sua agente publicitária.
                Todos os pensamentos de Natalie Cole simplesmente voaram da minha mente. Se essa mulher era agente de Whitney, eu ia tentar conseguir ser apresentado a ela. Ela era a estrela mais quente do mundo. Não me lembro de ter dito muita coisa, eu fiquei boquiaberto, mas Regina tagarelava enquanto me mostrava astros do cinema e da música e então me levou para a cozinha onde pegou uma garrafa de Champagne Piper, e me pediu para abri-la.
                “Cuidado,” ela me alertou, “essa é que é coisa cara pra valer, mas é o único tipo que eu bebo.” Eu acho que murmurei algo inteligente tipo, “Ah-hã,” e a vi servir duas taças pela metade de champagne, e depois completar com suco de laranja. Acho que ela chamou de mimosa ou algo do tipo. Fomos nos sentar no sofá e ela começou a fazer perguntas sobre o meu grupo, os nomes e as idades dos rapazes, que tipo de experiência e exposição nós tínhamos tido, e então ela me surpreendeu dizendo que queria ser nossa empresária. É isso, lembro-me de ter pensado, o Ammons Brothers Singing Group está no caminho direto ao topo.
                Conversamos durante horas e ficou óbvio que ela não queria que eu partisse, mas eu precisava ir. Estava dirigindo pra casa quando o meu Pager vibrou, então eu parei em um telefone público e liguei. Era Regina. “E aí?” eu disse. “Eu esqueci alguma coisa?”
                “Sim,” ela disse. “Eu.”  
                Na tarde do dia seguinte eu estava no Billie Jean’s quando Regina ligou e me convidou a encontrá-la no Hillary’s para jantar; ela queria conversar um pouco mais sobre agenciar o meu grupo. Ela já estava lá quando eu cheguei, e assim que eu me sentei, ela me disse que esse era o mesmo lugar onde ela se sentava quando almoçava com Oprah Winfrey. Ela disse que Oprah vinha oferecendo almoços e jantares para ela, tentando conseguir que ela convencesse Whitney a aparecer no seu programa.
                “De jeito nenhum Whitney vai aparecer no programa da Oprah, querido,” Regina disse. “Ela não gosta da Oprah. Ela a acha uma vendida, que sacode o rabinho para os convidados brancos e humilha os negros. Além do mais, Whitney sabe que a Oprah indagaria sua relação com Robyn Crawford e tentaria colocá-la numa posição delicada.” Ela riu e balançou a cabeça. “E, querido, isso nunca vai acontecer!”
                Essa foi a primeira vez que ouvi o nome de Robyn ser mencionado.
                No final dos anos setenta um rascunho de um roteiro chamado The Bodyguard andava circulando em Hollywood. Nele, uma superstar negra e um segurança branco se conheciam, juntavam-se profissionalmente, e eventualmente se apaixonavam. Nos anos setenta, casos de amor inter-raciais, especialmente nos cinemas, ainda eram tabu, então nada de mais aconteceu ao projeto. Aí nos anos oitenta o diretor-roteirista Larry Kasdan finalizou o roteiro e tentou produzi-lo. Ele havia trabalhado com Kevin Costner em Silverado e antes no Big Chill, dessa forma ele se aproximou primeiro de Costner a respeito de fazer o projeto.
                Costner se mostrou aberto à ideia, mas estava no meio das gravações de Dances With Wolves e pôs o script de Kasdan de lado. Meses mais tarde, depois do lançamento de Wolves e de ter sido aclamado um sucesso extraordinário (lucrando mais de $250 milhões de dólares em todo o mundo), Costner tirou da gaveta o script do The Bodyguard novamente e releu. Ele gostou do tema controverso, do perigo de se arriscar em um relacionamento inter-racial, e decidiu fazê-lo. Ele precisava de algo grande e corajoso para seguir sua primeira onda de sucesso como ator-diretor, e ele queria um projeto que faria o público tomar conhecimento. Ele não queria que todos achassem que Dances tivesse sido apenas um golpe de sorte.
                Com as caixas registradoras ainda soando no fundo e todos os grandes estúdios de Hollywood clamando para conseguir o próximo projeto de Costner, ele podia dar-se ao luxo de escolher. Há rumores de que seus assessores tentaram convencê-lo a cair fora, dizendo a ele que a América Conservadora, ou seja, o Cinturão da Bíblia, não aceitaria uma relação branco-negra, não importa quão grande fosse a estrela. Mas Costner foi firme. Ele queria fazer The Bodyguard, e em 1990 tudo o que Kevin queria, ele conseguia.
                Agora vinha o problema de escalar a superstar negra que era descrita no script de Kasdan como jovem, deslumbrante, sexy, e mal-intencionada. Várias atrizes negras adoráveis poderiam ter desempenhado o papel, mas Costner queria uma cantora de verdade. Todas as vezes que alguém queria uma atriz negra que cantasse, ou vice versa, chamavam Diana Ross. Ela tinha provado seu talento para atuar em Lady Sings the Blues e todos sabiam que ela podia cantar, mas havia um grande problema. Diana era dez anos mais velha que Costner.
                Não foi preciso um cientista para descobrir que Whitney Houston era jovem, negra, deslumbrante, sexy, e mal-intencionada! Costner nunca a tinha conhecido, mas ele, junto de outros milhares de fãs, tinha certamente visto seus vídeos, e ele achou que ela seria perfeita para o papel. Mas ela sabia interpretar? Muitas estrelas da música tinham tentado fazer a transição de cantora para atriz e tinham falhado. Sendo o caso mais recente: Madonna (Tão louco quanto parece, alguns maiorais da Warner Bros. tinham tentado convencer Costner a contratar Madonna para o papel. Ele disse abertamente, “Ei, camaradas, a última vez que eu vi, Madonna era branca!”)
                Costner pessoalmente ligou para Whitney e perguntou se ela gostaria de estrelar seu próximo filme, mas a diva não pareceu muito impressionada e disse que retornaria a ligação. Ela não ficou indiferente, todavia, e disse a Regina que ela quase teve um ataque cardíaco quando ouviu a voz de Kevin Costner no telefone.  Ele era a maior estrela no show business em 1990, e ele também era bonito, tímido e bem-apessoado. Uma combinação de matar, mas o ceticismo natural de Whitney a fez conferir. Quando sua agente voltou com as novidades, “Sim, a oferta é legitima,” ela concordou imediatamente sem nem mesmo ler o script.
                Havia apenas um porém – Costner teria que esperar até Whitney terminar sua turnê. Seu terceiro álbum acabava de ser lançado e ela estava agendada por um ano inteiro. Sem problemas, Costner ia esperar. “Eu simplesmente tinha um pressentimento sobre ela,” ele disse.
                I’m Your Baby Tonight foi disco de platina duplo, e o single título chegou ao topo das paradas. Esta era a oitava música de Whitney a ficar em primeiro lugar nas paradas e ela agora tinha empatado o recorde estabelecido por Madonna. Ela também tinha encontrado tempo para um pequeno romance em sua vida, e renovou seu relacionamento com Eddie Murphy. Desta vez era definitivamente um relacionamento sexual, não a velha história “somos apenas amigos” que ela tinha contado à mídia no passado. Os tablóides não conseguiam tirar o bastante desta união e escreviam sobre eles constantemente. Duas das mais bem sucedidas e lindas estrelas negras do show business estavam se pegando por toda a cidade, e os paparazzi tiveram um prato cheio.
                “Robyn ficou bege,” Regina me contou. “Absolutamente enfurecida e ordenou que Whitney parasse de sair com ele, que parasse de bancar a trouxa com esse cara, este mero homem! Robyn realmente detesta homens.”

                Mas Whitney a desafiou. Talvez ela estivesse finalmente começando a apreciar as vantagens de poder encontrar-se com alguém abertamente, sair em público com alguém de quem ela gostasse sem ter que responder a um bando de críticas acerca de sua preferência sexual.  

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