segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Biografia não autorizada de Whitney Houston (1996)

Good Girl, Bad Girl
An Insider’s Biography of
Whitney Houston
Kevin Ammons with Nancy Bacon



By Marcello Amorim

1
Como conheci
Whitney Houston

27 de Outubro de 1991 foi a noite mais emocionante e empolgante da minha vida. Estava em Los Angeles para assistir ao Thirteenth Annual Black Achievement Awards, sentado no centro da primeira fila, como convidado de Whitney Houston. A enorme sala estava cheia de celebridades. Os holofotes evidenciavam as jóias das mulheres. Quase todo afro-americano que já estrelou em um filme ou cantou um hit estava ali, todo enfeitado de ornamentos, rostos iluminados de expectativa. E lá estava eu, um garoto dos conjuntos habitacionais de Chicago que havia crescido admirando as mesmas pessoas com as quais estava sentado agora.
                Fiquei de pé e aplaudi quando Patti LaBelle chegou ao centro do palco e anunciou que estaria cantando o seu novo lançamento, “Somebody Loves You, Baby.” Quando a banda tocou a primeira nota, os aplausos quase os abafou, mas logo a voz rouca de Patti ergueu-se acima dos urros e a multidão se calou para ouvi-la. Estava a pouco mais de três metros de uma das mulheres mais lindas que já vi, e senti meu coração saltar quando seus olhos buscaram e se fixaram no meu olhar. Ela estava vestindo um top justo de veludo preto, com um corte em V profundo, expondo uma cremosa extensão de decote, e sua saia de renda preta era balonè, indo até um pouco acima dos joelhos com covinhas. Enquanto dançava pelo palco em forma de T, seu olhar encontrou o meu novamente. Então ela parou bem na minha frente e acenou com os dedos para mim. “Vamos lá, querido”, ela disse. “Faça – levante-se, querido, e faça – assim.” Ela estava dançando a apenas alguns centímetros do meu rosto, sua saia em forma de sino me hipnotizando, seus dedos acenando, impelindo que eu deixasse o meu assento. Eu me levantei e comecei a dançar com ela no ritmo da música. A multidão urrou em aprovação e Patti disse, “Vamos lá, querido, dance comigo.”
                Até hoje não me lembro bem de ter subido naquele palco, mas devo ter subido porque logo depois estava dançando com Patti LaBelle, sentindo suas mãos flertarem com meus dedos e braços enquanto ela repetia,  “Dance, querido, vamos lá. Cante comigo – mexa-se, querido, assim.” E eu estava me mexendo. Estava dançando. Estava cantando com Patti LaBelle. Os gritos da multidão me intoxicaram por completo e soltaram minha inibição, e minha voz se elevou quando me uni a Patti na letra da canção. Mas ao invés de cantar “Oh, baby, oh, baby” como ela, eu cantei, “Oh, Patti, oh, Patti,” e a multidão batia com os pés e urrava ainda mais alto. Os braços de Patti envolveram a minha cintura, e ela me puxou para perto, cantando, dançando, se movendo de encontro a mim à medida que nossas vozes se entrelaçavam em harmonia. Ela se virou para sorrir para a platéia. “Ele é mau,” ela disse, e então me encarou e me provocou, “Ohhh, querido, estou com medo de você!”
                Quando a canção chegou ao fim e já ia descendo do palco, Patti me pegou pela mão e perguntou, “Qual o seu nome, meu doce?” ao que consegui responder numa voz rouca e baixa, “Kevin Ammons.”
                “Kevin,” ela repetiu, erguendo seu braço para a multidão em um gesto introdutório. 
                Minha cabeça ainda estava girando quando fui aos bastidores após o show para me encontrar com Whitney. Estava saindo com a assessora de imprensa da Whitney, Regina Brown, há vários meses e já tinha estado com Whitney algumas poucas vezes antes. Ela estava me olhando com uma nova expressão de respeito e interesse. Eu sempre aspirei a uma carreira como cantor e já tinha compartilhado deste sonho com Regina, mas aparentemente ela não havia mencionado isso a Whitney.
                Patti veio até mim e comentou novamente que eu cantava bem. Ela me perguntou se eu já havia assinado com alguma gravadora e se tinha representante. “Caso não,” ela disse, “estaria interessada em discutir gerenciamento contigo.”
                Antes mesmo que tivesse chance de responder, Whitney veio correndo e disse, “Sim, ele tem. Eu vou gerenciá-lo.”
                Essa era uma novidade e tanto pra mim, e eu fiquei compreensivelmente espantado. Eu fiquei ali, olhando de uma para outra diva, e podia até sentir o calor competitivo entre elas. Esta era a minha primeira experiência com a controladora que vivia logo abaixo da superfície simpática de Whitney Houston. Quando cheguei a conhecê-la melhor, vi em primeira mão como ela exercia o seu poder e insistia em fazer as coisas a seu modo. Se alguém mais quisesse algo, Whitney queria mais e moveria montanhas para conseguir. Uma vez que a perseguição terminasse, ela perdia o interesse.
                Mas naquela noite intoxicante, eu não sabia disso e fiquei impressionado e extático. Senti que finalmente havia conseguido. O sonho que havia tido toda a minha vida estava ali bem na minha frente, na pessoa da linda superstar de tirar o fôlego, Whitney Houston. Ela ia gerenciar minha carreira como cantor e me tornar um astro. Ela me prometeu demos de qualidade, uma banda, cantores de apoio, horas em estúdio, o pacote completo, e eu acreditei em cada palavra. Eu estava nas nuvens quando Regina e eu voltamos para nossa suíte de hotel, e em todo o tempo em que fizemos amor, ainda podia ouvir o som da platéia aplaudindo.
                Mas não aconteceu. Whitney sempre me adiava, dando desculpas tão esfarrapadas que eu comecei a me sentir constrangido só de estar no mesmo recinto que ela. Fiquei magoado e confuso e com freqüência perguntava a Regina que diabos estava acontecendo, mas não obtinha respostas ali também. À medida que meu relacionamento com Regina se intensificou, ficou claro para mim que Whitney não me queria ver tendo êxito como artista. Ela queria me manter exatamente onde estava – ao seu inteiro dispor. Em retrospectiva, tenho vergonha de admitir que me permiti ser sugado pela Máquina Whitney (ou pela Família Real como ela gostava de referir-se a todos que trabalhavam para ela), mas eu acabei racionalizando pra mim mesmo por conta de querer tanto o estrelato.
                Não conseguia me lembrar de um só dia em que não quisesse cantar. Meu pai cantou com os Blenders, e minha mãe foi uma das Five Dolls em seu próprio grupo só de mulheres. Quando crianças crescendo nos humildes conjuntos habitacionais de Chicago, meus irmãos e eu dormíamos todas as noites ouvindo nossos pais ensaiando. Desde o nascimento, sabíamos que o nome Ammons tinha um legado musical vinculado a ele. Meu tio Albert Ammons era pianista e rei do boogie-woogie, e meu primo Gene “Jug” Ammons, saxofonista. Quem sabe quão longe meu pai teria ido se não tivesse sucumbido ao alcoolismo.  Quando fiz quinze anos de idade, em 1974, ele já tinha bebido até morrer. Sua morte foi registrada como trombose coronária, mas todos nós sabíamos que a bebida já tinha apodrecido sua alma.
                Eu nasci no dia 5 de Fevereiro de 1959, em Chicago. Meus pais estavam morando com a irmã do meu pai nos conjuntos que alojavam na maioria viciados. Minha tia era viciada em heroína, e uma das minhas lembranças mais remotas (só porque foi contada tantas vezes durante os anos em que crescia, cheguei a acreditar que realmente me lembrava do ocorrido) é de quando eu era apenas uma criança ainda nas fraldas.   Um policial disfarçado havia comprado um pacote de heroína da minha tia e a seguiu até em casa. Ela acabava de entrar no apartamento, sonolenta ainda da picada, quando uma batida alta estremeceu o meu pequeno mundo. “Policia!” uma voz gritou enquanto as batidas na porta aumentavam. “Abra essa maldita porta! Policia!”
                A próxima lembrança é de estar sendo pego pelos braços fortes do meu pai. Ele enfiou alguma coisa dentro da minha fralda. Mais tarde soube que ele havia tomado rapidamente a droga da mão de sua irmã e escondido no único lugar em que conseguiu pensar. Minha mãe abriu a porta e a estreita sala ficou logo cheia de oficiais da policia – armas em punho, exigindo saber onde o narcótico estava escondido. Meus pais protestaram sua inocência e convidaram os oficiais a buscarem, o que fizeram – e nada encontraram. Minha mãe diz que eu era um bebezinho tão despreocupado e de bom coração que ria e balbuciava, estendendo meus bracinhos gordinhos para os oficiais, e os policiais não conseguiam resistir, pausando em sua busca para me fazer cócegas e parabenizarem minha mãe por ter um bebê tão fofo.
                Oito meses mais tarde minha tia morria de uma parada cardíaca relacionada às drogas, e meus pais se mudavam para um cortiço caindo aos pedaços onde a vida não era muito melhor, financeiramente.  Mas era melhor emocionalmente. Nossa nova vizinhança era tão perigosa quanto à anterior, com violência de gangues, prostituição e tráfico de drogas como as carreiras de escolha, então meus irmãos e eu não brincávamos na rua com muita freqüência. Minha mãe inventava brincadeiras para nos entreter, e nós sempre simulávamos shows de música ou nos juntávamos quando meus pais estavam ensaiando com suas bandas. A coisa mais importante de que me lembro da minha infância é que era cheia de música.
                Muitos anos mais tarde, quando conheci Whitney Houston e começamos a trocar histórias da infância, fiquei maravilhado com a semelhança de nossas experiências. Fomos crianças negras e pobres, crescendo nos guetos, lutando todos os dias simplesmente para nos mantermos vivos. Nossas famílias eram ambas disfuncionais, mas acho que me saí melhor, emocionalmente, que Whitney.  Minha mãe é uma mulher amorosa e gentil, mas de temperamento forte que mantinha um olho afiado em todos os seus filhos, e pobre daquele tolo que tentasse nos fazer algum mal.
                Whitney e seu irmão, Michael, eram crianças largadas, deixados em casa sozinhos diariamente para se arranjarem sozinhos enquanto seus pais trabalhavam. Whitney admite que se sentia solitária e amedrontada na maior parte do tempo, e com raiva também, por sua mãe não parecer se importar o bastante com ela para estar presente quando fosse preciso. Outras crianças eram tão pobres quanto ela, mas tinham suas mães esperando por elas quando chegassem da escola. Whitney não tinha e até hoje esse é um ressentimento que ainda supura.
                Que sua mãe, Cissy Houston, era uma celebridade na vizinhança não importava tanto para uma garotinha. Ela queria sua mãe em casa, não em alguma casa noturna entretendo outras pessoas. Cissy sempre foi uma cantora gospel em sua igreja e desfrutou de pequenos sucessos ao longo dos anos como artista popular de R&B, mas só depois que Whitney nasceu foi que sua carreira realmente decolou. Ela formou o seu próprio grupo, the Sweet Inspirations. Logo elas estavam aparecendo regularmente no Apollo Philarmonic Hall, e em alguns outros clubes noturnos e teatros. O que significa que os dias de Cissy ficavam tomados de ensaios e suas noites de apresentações, de tal modo que não sobrava muito tempo para os seus filhos. Em defesa de Cissy, deve ser observado que ela trabalhava longa e arduamente por uma carreira que ela orava para que erguesse sua família no mundo.  Tirá-los dos conjuntos e levá-los para uma casa própria era um sonho ao qual ela se agarrava, e se isso significasse não estar com seus filhos tanto quanto gostaria, que fosse assim. Cissy era (e ainda é) uma mulher religiosa, e ela admite ter deixado seus filhos sob a proteção de Deus enquanto ela perseguia o seu sonho. Mas para crianças pequenas como Michael e Whitney, deve ter sido bem confuso. Deus não estava sentado numa poltrona esperando por eles quando chegavam em casa da escola. Ele não preparava o seu jantar ou perguntava como tinha sido o dia deles. Ele não podia ler uma história antes de dormirem ou cobri-los e dar neles um beijo de boa noite. Só uma mãe poderia fazer essas coisas.
                Whitney diz que levou muito tempo para ela superar sua infância solitária. Enquanto crescia, ela percebeu que seus pais precisavam trabalhar para manter um teto sobre suas cabeças e comida na mesa. Ela entendeu o desejo desesperado de sua mãe de tornar-se uma estrela porque teria ajudado a família a sair dos conjuntos para uma vizinhança melhor e mais segura.

                

2 comentários:

Cristal de uma mulher disse...

Amei teu texto amigo..

Um grande abraço

Marcello Amorim disse...

Olá, Cristal! Obrigado pela força. Espero que acompanhe o desenrolar da biografia. E se quiser deixar alguma crítica (construtiva, é claro rs), pode ficar à vontade. Forte abraço!