Good Girl, Bad Girl
An Insider’s Biography of
Whitney Houston
Kevin Ammons with Nancy Bacon
By Marcello Amorim
1
Whitney Houston
27
de Outubro de 1991 foi a noite mais emocionante e empolgante da minha vida. Estava
em Los Angeles para assistir ao Thirteenth
Annual Black Achievement Awards, sentado no centro da primeira fila, como
convidado de Whitney Houston. A enorme sala estava cheia de celebridades. Os
holofotes evidenciavam as jóias das mulheres. Quase todo afro-americano que já
estrelou em um filme ou cantou um hit estava ali, todo enfeitado de ornamentos,
rostos iluminados de expectativa. E lá estava eu, um garoto dos conjuntos
habitacionais de Chicago que havia crescido admirando as mesmas pessoas com as
quais estava sentado agora.
Fiquei de pé e aplaudi quando
Patti LaBelle chegou ao centro do palco e anunciou que estaria cantando o seu
novo lançamento, “Somebody Loves You, Baby.” Quando a banda tocou a primeira
nota, os aplausos quase os abafou, mas logo a voz rouca de Patti ergueu-se
acima dos urros e a multidão se calou para ouvi-la. Estava a pouco mais de três
metros de uma das mulheres mais lindas que já vi, e senti meu coração saltar
quando seus olhos buscaram e se fixaram no meu olhar. Ela estava vestindo um top
justo de veludo preto, com um corte em V profundo, expondo uma cremosa extensão
de decote, e sua saia de renda preta era balonè, indo até um pouco acima dos
joelhos com covinhas. Enquanto dançava pelo palco em forma de T, seu olhar
encontrou o meu novamente. Então ela parou bem na minha frente e acenou com os
dedos para mim. “Vamos lá, querido”, ela disse. “Faça – levante-se, querido, e
faça – assim.” Ela estava dançando a apenas alguns centímetros do meu rosto,
sua saia em forma de sino me hipnotizando, seus dedos acenando, impelindo que
eu deixasse o meu assento. Eu me levantei e comecei a dançar com ela no ritmo
da música. A multidão urrou em aprovação e Patti disse, “Vamos lá, querido,
dance comigo.”
Até hoje não me lembro bem de
ter subido naquele palco, mas devo ter subido porque logo depois estava
dançando com Patti LaBelle, sentindo suas mãos flertarem com meus dedos e
braços enquanto ela repetia, “Dance,
querido, vamos lá. Cante comigo – mexa-se, querido, assim.” E eu estava me
mexendo. Estava dançando. Estava cantando com Patti LaBelle. Os gritos da
multidão me intoxicaram por completo e soltaram minha inibição, e minha voz se
elevou quando me uni a Patti na letra da canção. Mas ao invés de cantar “Oh,
baby, oh, baby” como ela, eu cantei, “Oh, Patti, oh, Patti,” e a multidão batia
com os pés e urrava ainda mais alto. Os braços de Patti envolveram a minha
cintura, e ela me puxou para perto, cantando, dançando, se movendo de encontro
a mim à medida que nossas vozes se entrelaçavam em harmonia. Ela se virou para
sorrir para a platéia. “Ele é mau,” ela disse, e então me encarou e me
provocou, “Ohhh, querido, estou com medo de você!”
Quando a canção chegou ao fim e
já ia descendo do palco, Patti me pegou pela mão e perguntou, “Qual o seu nome,
meu doce?” ao que consegui responder numa voz rouca e baixa, “Kevin Ammons.”
“Kevin,” ela repetiu, erguendo
seu braço para a multidão em um gesto introdutório.
Minha cabeça ainda estava
girando quando fui aos bastidores após o show para me encontrar com Whitney.
Estava saindo com a assessora de imprensa da Whitney, Regina Brown, há vários
meses e já tinha estado com Whitney algumas poucas vezes antes. Ela estava me
olhando com uma nova expressão de respeito e interesse. Eu sempre aspirei a uma
carreira como cantor e já tinha compartilhado deste sonho com Regina, mas
aparentemente ela não havia mencionado isso a Whitney.
Patti veio até mim e comentou
novamente que eu cantava bem. Ela me perguntou se eu já havia assinado com
alguma gravadora e se tinha representante. “Caso não,” ela disse, “estaria
interessada em discutir gerenciamento contigo.”
Antes mesmo que tivesse chance
de responder, Whitney veio correndo e disse, “Sim, ele tem. Eu vou gerenciá-lo.”
Essa era uma novidade e tanto
pra mim, e eu fiquei compreensivelmente espantado. Eu fiquei ali, olhando de
uma para outra diva, e podia até sentir o calor competitivo entre elas. Esta
era a minha primeira experiência com a controladora que vivia logo abaixo da
superfície simpática de Whitney Houston. Quando cheguei a conhecê-la melhor, vi
em primeira mão como ela exercia o seu poder e insistia em fazer as coisas a
seu modo. Se alguém mais quisesse algo, Whitney queria mais e moveria montanhas
para conseguir. Uma vez que a perseguição terminasse, ela perdia o interesse.
Mas naquela noite intoxicante,
eu não sabia disso e fiquei impressionado e extático. Senti que finalmente
havia conseguido. O sonho que havia tido toda a minha vida estava ali bem na
minha frente, na pessoa da linda superstar de tirar o fôlego, Whitney Houston.
Ela ia gerenciar minha carreira como cantor e me tornar um astro. Ela me
prometeu demos de qualidade, uma banda, cantores de apoio, horas em estúdio, o
pacote completo, e eu acreditei em cada palavra. Eu estava nas nuvens quando
Regina e eu voltamos para nossa suíte de hotel, e em todo o tempo em que
fizemos amor, ainda podia ouvir o som da platéia aplaudindo.
Mas não aconteceu. Whitney
sempre me adiava, dando desculpas tão esfarrapadas que eu comecei a me sentir
constrangido só de estar no mesmo recinto que ela. Fiquei magoado e confuso e
com freqüência perguntava a Regina que diabos estava acontecendo, mas não
obtinha respostas ali também. À medida que meu relacionamento com Regina se
intensificou, ficou claro para mim que Whitney não me queria ver tendo êxito
como artista. Ela queria me manter exatamente onde estava – ao seu inteiro
dispor. Em retrospectiva, tenho vergonha de admitir que me permiti ser sugado
pela Máquina Whitney (ou pela Família Real como ela gostava de referir-se a
todos que trabalhavam para ela), mas eu acabei racionalizando pra mim mesmo por
conta de querer tanto o estrelato.
Não conseguia me lembrar de um
só dia em que não quisesse cantar. Meu pai cantou com os Blenders, e minha mãe foi uma das Five Dolls em seu próprio grupo só de mulheres. Quando crianças
crescendo nos humildes conjuntos habitacionais de Chicago, meus irmãos e eu
dormíamos todas as noites ouvindo nossos pais ensaiando. Desde o nascimento,
sabíamos que o nome Ammons tinha um legado musical vinculado a ele. Meu tio
Albert Ammons era pianista e rei do boogie-woogie,
e meu primo Gene “Jug” Ammons, saxofonista. Quem sabe quão longe meu pai
teria ido se não tivesse sucumbido ao alcoolismo. Quando fiz quinze anos de idade, em 1974, ele
já tinha bebido até morrer. Sua morte foi registrada como trombose coronária,
mas todos nós sabíamos que a bebida já tinha apodrecido sua alma.
Eu nasci no dia 5 de Fevereiro
de 1959, em Chicago. Meus pais estavam morando com a irmã do meu pai nos
conjuntos que alojavam na maioria viciados. Minha tia era viciada em heroína, e
uma das minhas lembranças mais remotas (só porque foi contada tantas vezes
durante os anos em que crescia, cheguei a acreditar que realmente me lembrava
do ocorrido) é de quando eu era apenas uma criança ainda nas fraldas. Um
policial disfarçado havia comprado um pacote de heroína da minha tia e a seguiu
até em casa. Ela acabava de entrar no apartamento, sonolenta ainda da picada,
quando uma batida alta estremeceu o meu pequeno mundo. “Policia!” uma voz
gritou enquanto as batidas na porta aumentavam. “Abra essa maldita porta!
Policia!”
A próxima lembrança é de estar
sendo pego pelos braços fortes do meu pai. Ele enfiou alguma coisa dentro da
minha fralda. Mais tarde soube que ele havia tomado rapidamente a droga da mão
de sua irmã e escondido no único lugar em que conseguiu pensar. Minha mãe abriu
a porta e a estreita sala ficou logo cheia de oficiais da policia – armas em
punho, exigindo saber onde o narcótico estava escondido. Meus pais protestaram
sua inocência e convidaram os oficiais a buscarem, o que fizeram – e nada
encontraram. Minha mãe diz que eu era um bebezinho tão despreocupado e de bom
coração que ria e balbuciava, estendendo meus bracinhos gordinhos para os
oficiais, e os policiais não conseguiam resistir, pausando em sua busca para me
fazer cócegas e parabenizarem minha mãe por ter um bebê tão fofo.
Oito meses mais tarde minha tia
morria de uma parada cardíaca relacionada às drogas, e meus pais se mudavam
para um cortiço caindo aos pedaços onde a vida não era muito melhor,
financeiramente. Mas era melhor emocionalmente. Nossa nova
vizinhança era tão perigosa quanto à anterior, com violência de gangues,
prostituição e tráfico de drogas como as carreiras de escolha, então meus
irmãos e eu não brincávamos na rua com muita freqüência. Minha mãe inventava
brincadeiras para nos entreter, e nós sempre simulávamos shows de música ou nos
juntávamos quando meus pais estavam ensaiando com suas bandas. A coisa mais
importante de que me lembro da minha infância é que era cheia de música.
Muitos anos mais tarde, quando
conheci Whitney Houston e começamos a trocar histórias da infância, fiquei
maravilhado com a semelhança de nossas experiências. Fomos crianças negras e
pobres, crescendo nos guetos, lutando todos os dias simplesmente para nos
mantermos vivos. Nossas famílias eram ambas disfuncionais, mas acho que me saí
melhor, emocionalmente, que Whitney.
Minha mãe é uma mulher amorosa e gentil, mas de temperamento forte que
mantinha um olho afiado em todos os seus filhos, e pobre daquele tolo que
tentasse nos fazer algum mal.
Whitney e seu irmão, Michael,
eram crianças largadas, deixados em casa sozinhos diariamente para se
arranjarem sozinhos enquanto seus pais trabalhavam. Whitney admite que se sentia
solitária e amedrontada na maior parte do tempo, e com raiva também, por sua
mãe não parecer se importar o bastante com ela para estar presente quando fosse
preciso. Outras crianças eram tão pobres quanto ela, mas tinham suas mães
esperando por elas quando chegassem da escola. Whitney não tinha e até hoje
esse é um ressentimento que ainda supura.
Que sua mãe, Cissy Houston, era
uma celebridade na vizinhança não importava tanto para uma garotinha. Ela
queria sua mãe em casa, não em alguma casa noturna entretendo outras pessoas.
Cissy sempre foi uma cantora gospel em sua igreja e desfrutou de pequenos
sucessos ao longo dos anos como artista popular de R&B, mas só depois que
Whitney nasceu foi que sua carreira realmente decolou. Ela formou o seu próprio
grupo, the Sweet Inspirations. Logo
elas estavam aparecendo regularmente no Apollo
Philarmonic Hall, e em alguns outros clubes noturnos e teatros. O que significa
que os dias de Cissy ficavam tomados de ensaios e suas noites de apresentações,
de tal modo que não sobrava muito tempo para os seus filhos. Em defesa de
Cissy, deve ser observado que ela trabalhava longa e arduamente por uma carreira
que ela orava para que erguesse sua família no mundo. Tirá-los dos conjuntos e levá-los para uma
casa própria era um sonho ao qual ela se agarrava, e se isso significasse não
estar com seus filhos tanto quanto gostaria, que fosse assim. Cissy era (e
ainda é) uma mulher religiosa, e ela admite ter deixado seus filhos sob a
proteção de Deus enquanto ela perseguia o seu sonho. Mas para crianças pequenas
como Michael e Whitney, deve ter sido bem confuso. Deus não estava sentado numa
poltrona esperando por eles quando chegavam em casa da escola. Ele não
preparava o seu jantar ou perguntava como tinha sido o dia deles. Ele não podia
ler uma história antes de dormirem ou cobri-los e dar neles um beijo de boa
noite. Só uma mãe poderia fazer essas coisas.
Whitney diz que levou muito
tempo para ela superar sua infância solitária. Enquanto crescia, ela percebeu
que seus pais precisavam trabalhar para manter um teto sobre suas cabeças e
comida na mesa. Ela entendeu o desejo desesperado de sua mãe de tornar-se uma
estrela porque teria ajudado a família a sair dos conjuntos para uma vizinhança
melhor e mais segura.

2 comentários:
Amei teu texto amigo..
Um grande abraço
Olá, Cristal! Obrigado pela força. Espero que acompanhe o desenrolar da biografia. E se quiser deixar alguma crítica (construtiva, é claro rs), pode ficar à vontade. Forte abraço!
Postar um comentário