segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Capítulo 6: Os Problemas de Whitney

 6

Os Problemas
de Whitney

Enquanto meus irmãos e eu estávamos ensaiando para a nossa apresentação no Drury Lane Theater, Regina continuou a me ligar de quatro a cinco vezes por dia e me convidar para sair. Eu estava passando diversas noites por semana em seu apartamento, jantando com ela, bebendo champagne, e conversando até amanhecer o dia. As conversas geralmente começavam com planos sobre como ela me ajudaria com minha carreira, mas depois de algumas garrafas de champagne, nós acabávamos nessas sessões de amasso selvagem.
                Eu era o que costumava colocar um fim nisso, dizendo que tinha que ir para casa. Eu amava minha mulher, Marsha, e sempre tinha honrado os meus votos matrimoniais, então me pegar beijando e tocando essa outra mulher, me fazia sentir muito culpado. Eu sempre trabalhei à noite, assim não foi difícil explicar para Marsha onde eu estava. Ela simplesmente supôs que eu estivesse no trabalho.
                Toda vez que eu estava no apartamento de Regina, ela recebia muitas ligações de Cissy ou Whitney. Do lado de Regina da conversa, era óbvio que Cissy estava se queixando ou de Whitney ou de Robyn.  E quando Whitney ligava, ela se queixava de tudo. Ela dizia que estava muito infeliz, muito cansada de toda a atenção da mídia, de estar na estrada. Ela queria sossegar, respirar, e ter tempo para gastar um pouco do dinheiro que vinha ganhando. Ela ficava no telefone com Regina durante horas, enquanto eu ficava sentado lá ouvindo.
                “Ela é uma jovem muito perturbada,” Regina me disse. “Ela quer uma vida normal, mas também quer ser uma superstar. Ela tem esse negócio com a Robyn Crawford, mas quer ter filhos e uma família. Por um lado, ela é durona, mas permite que Cissy e Robyn mandem nela. Talvez seja por isso que ela está começando a mandar nas pessoas agora, para ter um pouco de controle em sua vida. Eu só sei que ela tem problemas grandes e vai ter que lidar com eles antes de encontrar a felicidade.”
                Embora seu novo álbum já tenha chegado à platina duas vezes e seus shows estivessem completamente esgotados, os críticos continuavam a atacá-la. Eles comparavam seu álbum de estréia com este último e reportavam que “as vendas eram decepcionantes,” e alguns alegavam que ela não deveria ter tentado “endurecer,” que gostavam mais quando ela era “homogeneizada.” Curiosamente, eram os mesmos críticos que a haviam detonado no passado por ser “homogeneizada demais.”
                “Não tem como agradá-los [a mídia],” Whitney dizia. “São perversos comigo. Estão dispostos a comerem a minha carne.”
                “Ela simplesmente não sabe lidar com a imprensa,” Regina disse. “Ela é petulante e arrogante e despreza os repórteres, e está sempre atrasada, pelo menos uma hora, às vezes duas horas. Ela entra toda emproada cercada de quase um batalhão impenetrável de guarda-costas e assistentes. Depois se admira quando a chamam de diva.”

                Regina tinha me dito que o Ammons Brothers Singing Group apresentaria quatro músicas na noite do Drury Lane Theater. Nós fizemos uma vaquinha e compramos ternos de gripe feitos sob encomenda e estávamos prontos. Nós também compramos uma mesa bem próxima ao palco para os nossos amigos e familiares. Quando chegamos, descobrimos que Regina havia revendido nossa mesa. Eu fiquei furioso, mas ela não se intimidou e apressou-se a tentar encontrar outra mesa. Nós tivemos que nos dividir e eu acabei sentado no bar no fundo do teatro. Fiquei desconcertado porque tinha dito a minha família que aquela era a minha grande noite. Depois veio o golpe seguinte.
                “Eu sinto muuuito, querido,” Regina disse docemente, pressionando-se contra mim. “Mas vocês só vão ter tempo para uma música hoje à noite.” Ela deu alguma vaga explicação sobre escalas e outras coisas, mas o ponto de partida era “uma música” – depois de termos trabalhado tanto. Eu fiquei passado, mas segurei minha onda. Esta poderia ser ainda a minha chance e eu não ia estragá-la.
                Os convidados estavam jantando antes de Natalie Cole e das outras estrelas chegarem, de forma que o Ammons Brothers Singing Group veio a ser o número de abertura. Um tipo de aquecimento antes do show “de verdade” começar. Não tenho nem certeza se eles nos ouviram, havia tanto barulho de talheres retinindo e gente conversando e garçons correndo pra cima e pra baixo. Natalie Cole não estava nem nos assistindo. Ela estava em seu camarim jantando. Também, outra banda estava se preparando bem atrás das cortinas enquanto estávamos cantando. Nunca tinha sido tão humilhado em toda a minha vida.
                Quando me sentei com minha mãe, tentando explicar a ela o que tinha acontecido, Regina chegou dançando. Ela estava vestindo um terno de camurça verde-limão e estava extraordinária. Ela fez o maior estardalhaço com minha mãe, e depois me pegou pela mão e me puxou para a pista de dança. Era difícil ficar zangado com ela quando ela ligava o seu charme, especialmente quando ela ficava sussurrando no meu ouvido, me dizendo como eu estava fabuloso, e gemendo que queria fazer amor comigo ali mesmo. Ela estava se esfregando em mim, me beijando longamente a boca. De vez em quando eu percebia de relance o rosto da minha mãe, e ela estava em choque. Eu não sabia o que fazer. A essa altura eu já sabia que Regina era mestre na arte da manipulação e que ela mentiria mesmo quando a verdade lhe servisse melhor, mas eu havia sido fisgado. Eu a queria tanto quanto ela havia dito que me queria. Nós ainda não tínhamos ido pra cama, muito embora eu certamente estivesse mais que pronto e disposto.
                Enquanto Regina estava fora da cidade por alguns dias, eu pensei bastante sobre o nosso relacionamento. Eu decidi que se eu fosse continuar a vê-la, eu contaria a ela sobre minha mulher e filhos. Ela ligou pra se desculpar por não ter entrado em contato antes, porque tinha estado com Cissy noite e dia. Então ela me perguntou se estava sentado, pois tinha uma coisa pra me contar.
                “Eu nunca quis ficar com um homem tanto quanto quero ficar com você, Kevin,” ela disse. “Já sonhei em fazer amor com você milhares de vezes, mas tenho medo que não vá mais me querer depois que vir o meu corpo.” Ela depois explicou, em detalhes, tudo o que tinha acontecido a ela durante a cirurgia do câncer de mama. Não só os médicos tinham moldado novos mamilos de carne tirada de sua vagina, como também haviam removido ossos de sua costela para sustentar as paredes do seu estômago. Ela disse que era uma confusão de cicatrizes e que tinha “um corpo infernal,” e que ela não conseguia nem olhar-se no espelho, então ela só podia imaginar o que eu ia achar. Ela disse que a cirurgia a tinha deixado tão arrasada e com a auto-estima tão baixa que ela chegou a pensar em suicídio.
               “Então eu conheci você,” ela disse, “e comecei a me sentir como uma mulher novamente, mas precisava lhe explicar tudo para que soubesse no que estava entrando.”
                Eu fiquei chocado, mas também senti admiração por ela – e eu ainda a queria. Eu disse a ela, “Vai ser preciso mais que isso pra me afugentar. Quando chegar em casa, provarei a você.”
                Ela estava quase chorando quando disse, “Obrigada, Kevin, você nunca vai saber o que fez por mim.” Ela disse que estaria em casa na sexta-feira, e foram os três dias mais longos da minha vida.
                Mandei entregar quatro dúzias de rosas e vários cartões em seu apartamento na hora de sua chegada, e ela me ligou imediatamente, rindo e chorando, e me pediu que fosse para lá. Ela não conseguia esperar para me ver.
                Fomos ao Pops For Champagne, um pequeno restaurante romântico com jazz ao vivo e ótima comida, depois voltamos ao seu apartamento. Caímos nos braços um do outro no minuto em que a porta se fechou atrás de nós, nos beijando loucamente, e ela ficava repetindo, “Você tem certeza, Kevin? Tem certeza, querido?”
                “Tenho certeza,” eu disse, “Tenho certeza, Regina. Está tudo bem, querida.” Me sentei no sofá enquanto ela foi se trocar, e quando ela saiu do banheiro vestindo um leve roupão branco, me perguntei se estaria realmente tudo bem. Esperava que pudesse lidar com isso e que minha expressão não evidenciasse nenhum choque ou repulsa. Ela ficou de pé na minha frente e deixou cair o roupão, e eu fiquei chocado. Ela estava certa, seu corpo era coberto de cicatrizes e levou alguns segundos para eu me recobrar. Eu a tomei nos braços e ela começou a chorar, depois nos beijamos e ficou  tudo bem novamente. Eu não via mais as cicatrizes. Eu via uma mulher linda e desejável com um amor tão puro brilhando dos seus olhos que me surpreendia.
                Mais tarde, quando estávamos deitados juntos na cama, percebi uma fotografia em seu criado-mudo, dela com Michael Jackson, e eles estavam se beijando. Este é um item de colecionador, eu pensei, Michael beijando uma mulher. Ela pulou para fora da cama, voltando com um álbum cheio de fotos de Michael, Whitney, Robyn, e dela mesma. Ela disse que haviam sido tiradas na casa de Michael, e tinha uma de Whitney e Robyn juntinhas numa carruagem. Ela disse que o único jeito de chegar ao rancho Neverland de Michael era de helicóptero, e depois ela me contou uma história que me fez estremecer. Ela disse que uma vez Whitney tinha ido ao rancho com Robyn para presenteá-lo com alguma premiação, e de repente, bem na frente dos seus olhos, as bochechas dele começaram a se mover.
                “Ele tinha feito um implante para aumentar as maçãs do rosto, e ele simplesmente se soltou e escorregou por seu rosto, vindo parar em seu queixo.” Regina estava rindo e rolando na cama. Ela me mostrou mais fotos de celebridades, e quando eu vi uma dela com Luther Vandross parecendo bem íntimos, eu perguntei se ela já tinha tido um caso com ele.
                Ela riu e revirou os olhos. “Dificilmente, querido. Não faço o seu tipo.”
                Eu ainda tinha muito a aprender sobre Regina, mas naquela noite nada importava, porque estava me dando conta de que tinha me apaixonado por ela. No dia seguinte, ela me enviou pelo menos umas vinte e cinco mensagens, e todas as vezes que eu retornava, ela sempre dizia a mesma coisa: “Só estava pensando em você. Eu amo você, Kevin Ammons.”
                Algumas semanas mais tarde, no apartamento de Regina, eu vi um jornal na mesinha de centro com uma grande manchete em negrito: “Whitney Houston esperando um bebê de Eddie Murphy!” li rapidamente: “Whitney Houston e Eddie Murphy estão se casando esta primavera. E se isso não for o bastante para abrandar os boatos sobre a preferência sexual de Houston por mulheres, Murphy está ‘atando o nó,’ porque ela está grávida de um bebê seu.”
                “Todo mundo está sempre dizendo que Whitney só sai com Eddie para parar os boatos de que ela é gay e que está realmente tendo um caso com Robyn,” Regina disse. “Mas ela é louca pelo Eddie. Só me pergunto se ele sente o mesmo por ela.”

                Notícias de que uma guerra estava se formando no Golfo Pérsico empurraram Eddie e Whitney para fora das primeiras páginas, enquanto os americanos se uniam para mostrar seu apoio ao Presidente Bush e seu patriotismo. Isto aconteceu em janeiro de 1991, e com o Super Bowl chegando, organizadores precisavam de alguém extra-especial para cantar o hino nacional. Quem melhor que a diva mais popular da América, Whitney Houston?
                Clive Davis ficou estático. Sua cliente ia se apresentar diante de mais de 100 milhões de telespectadores, e ele planejava tirar proveito disso. Embora “The Star-Spangled Banner” fosse ser cantado ao vivo, Davis trouxe um caminhão de equipamentos eletrônicos sofisticados para certificar-se de que teria uma fita com qualidade de lançamento da voz de Whitney. Davis percebeu que para faturar com a gravação de Whitney ele teria que manter segredo a respeito de seu plano até depois do Super Bowl, então o que a platéia viu não foi exatamente o que estavam levando. Eles não sabiam que Whitney estava sendo gravada quando ela ficou de frente para eles, com as duas mãos segurando o microfone enquanto entoava a letra familiar. Sua voz nunca esteve mais forte ou mais pura enquanto ecoava com emoção. Ela estava prendendo toda a atenção de forma assombrosa, e naquele momento ela capturou o coração da América. O Patriotismo estava em alta já que nossos rapazes e moças se preparavam para ir para a guerra, e Davis queria assegurar-se de que eles partissem com o som da interpretação de Whitney do hino nacional em suas mentes e em seus corações.
                Whitney não decepcionou Davis – ela causou profunda admiração em todo o mundo e todos os repórteres com um computador a elogiou. Dizia o New York Times: “Uma orquestra inteira acompanha a provocante e sinuosa voz da Srta Houston, tornando o hino nacional voluptuoso; à última nota juntou-se o som de jatos F-16 sobrevoando o estádio.”
                Com essa única canção, Whitney conseguia mudar a opinião pública a seu favor. Ela não poderia ser tão ruim assim, os críticos fundamentavam, se ela conseguia imprimir sinceramente tanta paixão em nosso hino nacional. Davis anunciou que sua gravadora, Arista, planejava mandar cópias gratuitas da gravação para todos os militares que estavam servindo no Golfo. Quando pressionado pelos fãs a lançar também nos Estados Unidos, Davis agiu como se essa tivesse sido uma idéia maravilhosa e por que ele não tinha pensado nisso? No entanto, alguns repórteres descobriram que Davis tinha feito planos elaborados para uma gravação antes do Super Bowl, e perguntaram se ele estava explorando a guerra para fazer fortuna com a apresentação do Super Bowl.
                “De forma alguma,” Davis respondeu, sentindo-se ofendido; prometendo em seguida que toda venda do single e do vídeo seria revertida em doações para uma instituição de caridade “a ser escolhida pela Srta Houston.” Ele era americano e tão patriota quanto o cara ao lado.
                Ele fez jus a sua promessa, doando mais de meio milhão de dólares ao American Red Cross Gulf Crisis Fund assim como à Whitney Houston Foundation for Children. Que esse ato patriótico de caridade também colheu enorme publicidade para Whitney e seu novo álbum era apenas uma coincidência.   Quando o single foi lançado, “The Star Spangled Banner” estava de um lado, “America the Beautiful” do outro. Foi direto ao primeiro lugar nas paradas. O único outro momento da história em que isso ocorreu foi quando Kate Smith gravou “America the Beautiful,” uns quarenta anos antes.
                Críticos e fãs semelhantemente estavam aturdidos com o sucesso deste single, e a popularidade de Whitney bateu todos os recordes. Era quase como o comecinho de sua carreira, quando ela não parecia errar em nada. Whitney Houston era tão boa que podia transformar em hit uma canção que havia sido escrita em 1814 – há 176 anos!
                “Ela pode ter sido a queridinha da América,” Regina me disse mais tarde, “mas você tinha que ter ido ao Super Bowl. Você não ia acreditar no arranca-rabo entre ela, Robyn e Cissy.” Eu a pressionei para obter detalhes e ela me disse:
                “M.C. Hammer apareceu com sua comitiva e ele e Whitney se destacaram do grupo e estavam conversando e rindo, e Robyn ficou uma fera. Quando estavam deixando o camarote, Robyn agarrou Whitney pelo braço e a puxou para um canto e começou a lhe dar um sermão a respeito de flertar com Hammer. Ela estava muito irritada com essa história de Whitney estar repentinamente saindo com todos esses caras e tentando fazer as pessoas pensarem que elas não estavam mais juntas. Acho que alguns dias antes disso, Bobby Brown havia mandado quatrocentas rosas para Whitney, e Robyn ficou espumando de ciúmes. Eu a ouvi gritar alguma coisa como era melhor que Whitney não a humilhasse nunca mais daquele jeito, e Whitney puxou seu braço de volta e disse, ‘Vai pro inferno!’
               “Com isso, Robyn levantou o braço e deu uma bofetada no rosto de Whitney. Havia um grupo de pessoas em volta e todos ficaram olhando, mas em vez de revidar, Whitney começou a chorar e saiu correndo. Eu a segui e estávamos juntando nossas coisas, prontas para sair, quando ouvimos um tumulto. Cissy estava confrontando Robyn e ela estava cuspindo fogo e gritava, ‘Que merda é essa de colocar as mãos na minha filha?” Em seguida – poft! – ela lhe acerta um soco no queijo! E depois mais um e Robyn caiu no chão, mas Cissy continuou a socá-la e a chutá-la, gritando, “Eu vou te matar, sua cadela estúpida!”
                “Espectadores separaram a briga, tirando Cissy de cima de Robyn, enquanto eu apressava Whitney pra fora dali, de volta para o nosso quarto de hotel. Ela estava chorando muito e nós conversamos por cerca de duas horas, comigo tentando acalmá-la. O telefone não parava de tocar mas Whitney me disse para não atendê-lo. Então a porta se abriu e Robyn entrou correndo, chorando histericamente e dizendo a Whitney o quanto ela se arrependia e ficou repetindo, ‘Eu te amo, querida, eu simplesmente te amo demais!’ Whitney a tomou nos braços e elas começaram a se beijar e chorar, e eu muito discretamente apaguei as luzes e deixei o quarto.”
                Regina me disse que uma das condições de se trabalhar para Whitney era nunca dizer uma só palavra sobre Robyn a ninguém. Para garantir seu silêncio, Whitney tinha dado a Regina muitos presentes caros: uma Mercedes-Benz dourada, uma cruz cravada de diamantes, um cartão de crédito corporativo, uma conta de cartão telefônico, brincos de diamante, viagens de avião gratuitas, um salário de $125.000 dólares por ano, e um apartamento luxuoso.

                Meu caso com Regina tinha realmente esquentado a essa altura, e eu estava passando quase todas as noites com ela. Uma noite estávamos deitados na cama por volta das 03h30min da manhã quando o telefone tocou. Ela atendeu, dizendo, “Oi, Nippy. E aí?”
                Depois de desligar, ela me disse que Whitney tinha perguntado o que ela estava fazendo acordada àquela hora; ela devia estar fazendo “a coisa selvagem” e queria saber com quem.
                “Eu precisava de um pouco,” Regina disse rindo, olhando para mim. “Kevin é teimoso pra burro mas eu o amo de verdade... Está bem, eu apresento vocês da próxima vez que nos virmos. Você vai gostar dele.”
                Whitney disse a Regina que tinha ligado para avisar que ela receberia um pacote por Fedex na manhã seguinte, e Whitney queria certificar-se de que tudo corresse como planejado.
                Eu ainda estava lá quando a encomenda chegou e vi quando Regina a abriu. Continha fotografias de Whitney e Randall Cunningham, zagueiro do Philadelphia Eagles, tiradas pelo fotógrafo de Whitney, Marc Murphy Bryant. Regina foi instruída a vendê-las para os tablóides ou “dá-las de graça,” Whitney disse a ela. “Não me importa o que faça, simplesmente consiga que sejam publicadas.”
                Whitney ainda estava arrastando um vagão por Eddie Murphy, e queria dar o troco por ele a ter largado. Ela achou que se ele a visse com outros caras, ele ficaria com ciúmes e voltaria com ela. Whitney teve um breve lance com Randall em sua casa em Antigua e ele foi fisgado, dizendo a Regina que estava apaixonado por Whitney. Ele ligava para Regina e ela o colocava no viva-voz para eu ouvir. O cara parecia chateado e não entendia por que Whitney não falava com ele. Ele insistia que Regina pedisse a Whitney para ligar pra ele, e Regina prometia que Whitney ligaria – depois Regina revirava os olhos pra mim e dizia, “Ele é um tremendo nerd.”
                Regina ligou para Whitney e disse a ela que as fotografias tinham acabado de chegar, e Whitney pediu que as repassasse para os jornais, mas que se certificasse de que ninguém soubesse que vinham da Nippy, Inc. Então Regina me pediu que as enviasse para os tablóides uma vez que ninguém me ligaria a Whitney. Eu concordei, mas disse a ela que ao invés de dá-las, por que nós não as vendíamos? O Enquirer e o Star e o Globe pagariam uma boa grana por elas.
                “Vou te dizer uma coisa, querido,” ela disse. “Se você conseguir vendê-las, você pode ficar com o dinheiro.”
                A caminho de casa, eu parei na loja de alimentos Jewel e comprei uma cópia de todos os jornais que tinham, depois criei uma história para acompanhar as fotos. Liguei para todos os editores, deixando recados dizendo que era guarda-costas de Whitney Houston e que tinha fotos exclusivas dela e de um novo amor secreto, Randall Cunningham, e estava disposto a vendê-las. Dentro de uma hora, meu telefone não parava de tocar. Disse a eles que queria $20.000 dólares e disseram que isso não seria um problema, contanto que eu tivesse os negativos. O Sunday Mirror de Londres, Inglaterra disse que enviaria um mensageiro para me encontrar e verificar as fotos.
                Liguei para Regina com as novidades. Ela vibrou, mas me disse que precisava conversar com alguém e que me ligaria de volta imediatamente. Ela ligou, mas era uma conversa de três vias com alguém que se chamava Simone, e Regina me pediu para explicar tudo – o que eu havia dito ao jornal, o telefone deles, etc. – que Simone era uma boa negociadora e ela iria assumir a negociação a partir dali.
                Eu fiquei furioso. Eu tinha feito todas as ligações e proposto uma história sólida e crível, então eu não ia deixar que outra pessoa recebesse o crédito. Disse isso a Regina e estava pronto pra pular fora quando ela se desculpou e disse, “Não, não, querido, tudo bem. Você cuida da negociação.”
                Eu marquei de encontrar o mensageiro em frente ao Fairmont Hotel, e insisti que ela me acompanhasse. Ela não queria ser vista.  No caso, eles poderiam ligá-la a Whitney; então, ela esperou no meu carro enquanto eu entrei para conversar com o cara.
                Logo que entrei no lobby, este camarada veio até mim, estendendo sua mão. “Você é Kevin Ammons?” ele perguntou com um sotaque britânico. Disse que era e fomos direto aos negócios. Dei a ele as fotos e os negativos. Ele tirou da bolsa uma lupa e estudou cada uma, depois me pediu para contar-lhe novamente como eu as tinha obtido. Disse que era segurança de Whitney Houston e que tinha tirado as fotos e queria vendê-las: “Apenas diga se está interessado.” Ele disse que estava, mas que o jornal só podia pagar dez mil, não vinte. Quando eu pedi vinte, já esperava que viessem com uma oferta de dez ou quinze.
                Disse que teria que checar com minha “esposa,” que estava do lado de fora no carro, e voltaria em seguida. Estava empolgado quando me inclinei na janela do carro para dar um beijo em Regina, dizendo a ela que estava fechado; tínhamos dez mangos esperando por nós. Para minha surpresa e choque totais, ela disse, “Aquele playboyzinho está cheio de merda, homem! Ele provavelmente nem trabalha para o jornal e só quer pôr as mãos nas fotos para que possa vendê-las por cinqüenta mil! Qual o nome dele afinal?” Eu disse e ela retrucou, “Ele que se foda! Vou dá-las antes de deixar que esse filho da puta se aproveite de você.”   
                Disse a ela que não precisava dessa merda. “Agora cai fora do meu carro que eu preciso ir trabalhar.”
                Na manhã seguinte ela me ligou, pedindo desculpas, falando manso, e disse que tinha decidido que ia mandar as fotos de volta para Whitney. Ela não queria que uma burrada dessas nos atrapalhasse. Eu amoleci e tudo voltou ao normal até duas semanas mais tarde quando eu recebi uma ligação do editor do Sunday Mirror, ligando de Londres. Ele queria saber se havia alguma verdade no boato de que um romance estava surgindo entre Whitney e Bobby Brown. Ele disse que estaria disposto a pagar muito mais do que havia pagado pela história com o Randall Cunningham. Demorou um segundo para eu descobrir o que deve ter acontecido, mas eu calmamente perguntei se ele poderia me passar por fax uma cópia da história, já que eu não tinha visto.
                Meti a cópia do fax no bolso, peguei as chaves do carro e fui para o apartamento de Regina. Ela ficou surpresa por me ver, mas me pediu para entrar e eu disse, “Você tem alguma coisa pra me dizer?”
                “O que quer dizer?” ela perguntou, genuinamente intrigada. Nunca ocorreu a ela que eu descobrisse a história porque o Sunday Mirror era publicado em Londres.
                Mantive minha calma e perguntei novamente, “Regina, você tem certeza de que não tem uma coisa pra me contar?”
                Ela balançou a cabeça, franzindo a testa. “Não. Não sei o que quer dizer.”
                “Muito interessante. Acabei de receber uma ligação do editor do Sunday Mirror, e ele me agradeceu por deixar minha ‘esposa’ vender a eles a história de Whitney Houston.”
                Ela deu um salto e gritou, “Ele é um mentiroso! Eu não vendi história nenhuma pra ninguém.”
                “Sente-se antes que eu a derrube.” Eu peguei o telefone e fingi fazer uma ligação para Londres.
                “Desligue o telefone, querido,” Regina disse, e começou a chorar. Ela fez o seu numerozinho de fala-mansa comigo novamente e desculpou-se por mentir pra mim. Ela disse ter dividido o dinheiro entre sua tia e a madrinha de Whitney, Ellen (tia Bey) White, porque achava que eu não precisasse tanto quanto elas. O cheque tinha sido nominal a Evette Bassette, assistente de Regina, e ela também tinha dado mil dólares a Simone. Ela estava chorando e agarrando-se à minha mão, em seguida, começou a me beijar e me puxou para o quarto e melhorou tudo da única maneira que sabia.
                Eu sabia que devia ter caído fora naquele momento, mas estava apaixonado por ela. E também, não queria estragar o que achava que seria minha chance em uma carreira como cantor. Ela tinha me dito centenas de vezes que tinha contado a Whitney tudo sobre mim, e logo que Whitney tivesse um tempinho, ela queria ouvir o Ammons Brothers Singing Group. Ela disse que Whitney poderia me conseguir um contrato com a Arista Records porque ela os mantinha vivos e elas a deviam muito.
                Alguns dias depois, eu estava sozinho no apartamento. Regina tinha ido ao mercado e eu atendi ao telefone e ouvi esta voz familiar pedindo para falar com Regina. Reconheci Whitney imediatamente e disse que Regina não estava, mas que ficaria feliz em dar o recado.  
                “Você deve ser o Kevin,” ela disse. “Já ouvi falar muito de você e mal posso esperar para conhecê-lo.” Sua voz parecia gutural e sexy, um pouco rouca. Regina tinha me dito várias vezes que Whitney fumava tanta maconha misturada com cocaína que ela estava desenvolvendo pólipos na garganta e tinha sido advertida por seu médico a parar. Já tinha estado próximo a usuários de maconha e drogados minha vida toda e reconheci aquela rouquidão imediatamente. Mas não estava pensando nisso no momento; estava muito emocionado por estar falando com Whitney Houston.
                Isso foi em março de 1991, e Whitney estava agendada para se apresentar em um show especial para as tropas que estavam voltando do Golfo. Seria um especial da HBO chamado “Welcome Home, Heroes” e aconteceria na Estação Naval de Norfolk na Virginia no dia 31. Whitney pediu a Regina que me convidasse. A princípio, Whitney não estava muito animada para fazer o show, mas ofereceram-lhe “milhões de dólares,” Regina disse, e Whitney mudou de idéia. Regina me disse que Whitney estava sob muita pressão, pois Robyn a estava magoando muito por causa de Bobby Brown. E também, porque seu pai, John Houston, tinha dado uma escapada com sua empregada de vinte e nove anos de idade, Barbara Peggy Griffith, de Trinidad. Whitney ficou passada e demitiu a mulher na hora. Ela se recusava a falar com seu pai e disse a Regina, “Ele tem idade para ser avô de Peggy, pelo amor de Deus!”

                Regina colocava Whitney no viva-voz e ficava ouvindo ela chorar. Ela parecia estar tão só e infeliz. Regina dizia que ela devia se livrar de Robyn, encontrar um cara bacana, e ter alguns filhos. Regina era paciente com ela, ouvindo-a durante horas, confortando e acalmando-a, dizendo que tudo ficaria bem. 

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