sábado, 24 de agosto de 2013

Capítulo 7: Um Sujeito Durão

7

Um Sujeito Durão


Cheguei a Norfolk, Virginia, no dia 30 de março, um dia frio e chuvoso. Regina tinha ido pra lá alguns dias antes para ficar com Whitney enquanto ela ensaiava. Regina estava esperando por mim no aeroporto. Ela veio voando pelo saguão e literalmente se jogou nos meus braços, me abraçando e beijando. Um motorista de limusine estava com ela, e ele pegou a minha bagagem e eu automaticamente me ofereci para ajudá-lo. Estava acostumado a carregar minhas próprias bolsas, mas Regina falou ríspida e rapidamente, “Esse é o trabalho dele, não o seu!”
Nós encostamos em frente ao Omni Hotel. Dezenas de adolescentes se acotovelavam nas calçadas segurando cartazes e fotografias do novo grupo New Kids on the Block. Regina disse que eles também estavam se apresentando em Norfolk e que estavam hospedados no mesmo andar que nós.
No dia seguinte fomos a um shopping e fizemos algumas compras antes de nos encontrarmos com Whitney. Eu estava uma pilha de nervos. Eu queria conhecê-la há algum tempo. Já tinha a ouvido no viva-voz inúmeras vezes, derramando o seu coração para Regina. De acordo com Regina, Whitney estava interessada em ouvir o meu grupo e tinha dito a ela que não via a hora de me conhecer. Regina já tinha me contado tantas histórias que eu já não tinha certeza se o que ela estava dizendo era verdade, mas eu acreditei nela porque queria muito acreditar nela. Toda a minha vida tinha sonhado em ser um astro, e se eu sabia que alguém podia me ajudar a tornar esse sonho real, esse alguém era Whitney Houston.
Whitney estava checando o som quando eu e Regina entramos, e eu fiquei perplexo com o quanto ela era linda pessoalmente. Todas as fotos que já tinha visto dela eram impressionantes, obviamente, mas nenhuma delas fazia jus a sua pele fantástica. Seus olhos dançavam com inteligência e travessura quando ela olhou para mim e disse, “Então esse é o Kevin, de quem eu ouvi falar tanto. É um prazer finalmente conhecê-lo.”
“O prazer é todo meu,” eu lhe assegurei.
Também conheci Robyn Crawford, de quem eu tinha ouvido tanto falar. Ela estava vestindo um terno trespassado e sapatos masculinos. Seu cabelo estava cortado curto, estilo militar, e ela não usava maquiagem nenhuma. Seu rosto era bonito com traços finos, mas ela parecia sombria e hostil e raramente tirava os olhos de Whitney. Ela me deu uma rápida olhadela de cima a baixo, sua expressão dura, e depois me dispensou.
Assistimos ao ensaio, depois saímos para jantar, e em todo o tempo que Regina ficou tagarelando, eu só pensava em Whitney. Nunca tinha visto um corpo como o dela. Era esbelta e esguia e ainda voluptuosa e sensual.
Quando chegamos para o show aquela noite, Michael Houston me perguntou se eu poderia me sentar próximo a sua mãe, Cissy, e ficar de olho nela. Ela estava com uma perna engessada e ele estava come medo que algum fã excessivamente zeloso pudesse tropeçar nela. Então lá estava eu, no centro da primeira fila, quando Whitney subiu rapidamente ao palco. Ela estava deslumbrante. Sua pele, seu cabelo, seu sorriso – tudo nela brilhava como se ela tivesse sido acesa por dentro.
A platéia de mais de três mil pessoas, a maioria veteranos do Golfo e suas famílias, assoviavam e batiam os pés, e aplaudiam de pé. Ela encarou o destino, agarrou o microfone, e numa voz forte, pura e potente, cantou em alta voz o hino nacional – a cappella. Foi como se ela estivesse dando careta para os críticos que a tinham censurado por gravar o hino no Super Bowl.
 O show foi espetacular, e a certa altura, Whitney desceu na primeira fila e tirou uma criança do colo de um militar. Ela sentou o menino em um banco, cantando para ele, e ele ficou olhando em volta; ele era novo demais para ficar sentado sozinho naquele banco alto. Até hoje eu não sei o que deu em mim para assumir o problema, mas eu me inclinei na frente do palco e pedi para Whitney descer o menino do banco e devolvê-lo ao seu pai. Quando eu me sentei ao lado de Cissy, expliquei que estava com medo que a criança caísse. Ele não era grande o bastante para sentar-se sozinho e Whitney podia ser processada.
Cissy disse que não tinha pensado nisso e me agradeceu e apertou com carinho a minha mão. As pessoas traziam bouquets de rosas para Whitney, e eu me perguntava por que os seguranças não interceptavam as flores para ver se elas continham alguma coisa que pudesse fazer mal. Sei que posso parecer um pouco paranóico, mas há muita gente doente por aí. É preciso apenas um maluco que queira ter o seu nome estampado nos jornais por matar uma celebridade.
Depois do show, me desculpei com Whitney por ter sugerido que ela tirasse o menino do banco e expliquei o porquê de ter feito aquilo. Ela ficou grata e me agradeceu pelo interesse. Também mencionei que ela não deveria pegar as flores diretamente dos fãs, mas tê-las checadas por seus seguranças primeiro. “Nunca se sabe quando um maluco imbecil pode ter uma pistola escondida no bouquet, pronto para acabar contigo,” eu disse, e seus olhos se arregalaram de medo. Toda grande estrela tem um pouco de medo quando se mistura às multidões, e Whitney não era exceção. Além do mais, ela vinha recebendo muita crítica negativa nos últimos anos e estava compreensivelmente cautelosa. 
Regina sussurrou pra mim, “Pare com isso, Kevin. Não é sua função cuidar da Whitney.”
Mas Whitney ficou grata e me disse isso. Ouvi dizer mais tarde que cabeças rolaram por seus seguranças não terem feito o seu trabalho como deveriam.

Na manhã seguinte, Whitney foi convidada de honra em um brunch oferecido pelos executivos da HBO para mostrar sua estima e para agradecer por seu sensacional desempenho. Sua família e amigos também foram convidados. Sentei-me próximo a Regina, Cissy e John Houston, e a secretária de Whitney, Sylvia. John estava tentando se chegar a Cissy, fingindo ser ainda um casal feliz, e todas as vezes que ele se inclinava mais para perto para falar com ela, eu via um olhar de puro ódio se espalhar pelo rosto de Cissy. Ela ainda estava se sentindo humilhada por seu caso com Peggy Griffith e pelo fato dela ter sido uma empregada, pelo amor de Deus! E a empregada de sua própria filha ainda por cima.
Cissy sabia que estavam cochichando por suas costas e sentindo pena dela, e ela não suportava isso. Ela também sabia que amigos e parentes estavam rindo do quanto era ridículo um homem de setenta anos com uma mulher de vinte e nove. Peggy era mais nova que seus dois filhos e só um ano mais velha que Whitney. Isso fez Cissy sentir-se uma tola, e ninguém escapava ileso depois de ter feito Cissy de boba.
Eu a vi pegar um garfo da mesa e virar-se para encarar John. Seus dentes estavam cerrados, sua expressão maligna. “Sai de perto de mim,” ela sussurrou, “ou enfio esse garfo no seu olho!”
John rapidamente se afastou da mesa, e um dos executivos da HBO segurou o seu braço e perguntou quando Whitney ia descer. O executivo disse que sua esposa era uma das maiores fãs de Whitney e estava louca para conhecê-la. Nós já estávamos esperando por cerca de uma hora, e todos na mesa estavam ficando impacientes. John fez um sinal chamando Sylvia e pediu a ela que ligasse para o quarto de Whitney e que dissesse a ela que todos a estavam esperando.   
O olhar no rosto de Sylvia só podia ser descrito como de puro terror e apreensão. Todos que trabalhavam para Whitney sabiam que ela arrancaria a cabeça de quem ousasse incomodá-la antes das três horas da tarde. Relutantemente, Sylvia fez a ligação de um dos telefones do hotel, e eu soube mais tarde que Robyn atendeu e imediatamente começou a esbravejar e gritar por ter sido acordada tão cedo. Sylvia disse que estava ligando a pedido de John e que todos estavam esperando que Whitney descesse para comer. A essa altura, Whitney pegou o telefone e disse a Sylvia para ouvir atentamente e “diga ao meu pai exatamente o que lhe disser, palavra por palavra, não mude uma vírgula, entendeu?”
Eu estava olhando para o rosto de Sylvia e ela provavelmente queria estar em qualquer outro lugar no mundo exceto na sala de jantar do Omni Hotel. Ela parou perto da cadeira de John, de cabeça baixa, e disse a ele, “Whitney não vai descer. Ela disse que a HBO pagou pra ela se apresentar, e não para tomar café da manhã com eles. E se alguém tiver algum problema com isso, ela lamenta muito!”
Não preciso nem dizer que a atmosfera na mesa mudou e todos mal falaram entre si até o fim do café da manhã. Regina voltou para o nosso quarto e eu fui até John para conversar. Ele parecia bastante infeliz parado ali sozinho, e assim que me aproximei, ele começou a vociferar.
Ao invés de ficar bravo com Whitney por tê-lo humilhado, ele atacou os executivos da HBO. “Veja só todos esses brancos filhos-da-puta esperando pra conhecer minha garotinha. Eles estão se lixando pra ela e pra todo mundo. O que importa pra eles é usá-la pra fazer dinheiro pra eles.”
Ele estava espumando de raiva, e era mais do que só o fiasco na sala de jantar. Esse homem tinha uma raiva muito profunda dentro de si. “Os brancos filhos-da-puta sempre nos usaram, os negros,” ladrou ele. “Queria jogar uma bomba nessa cambada de inúteis.”
Como cheguei a conhecê-lo melhor nos próximos anos, descobri que sua raiva vinha de seu fracasso como promotor e gerente musical. Ele queria o estrelato de Cissy não só por ela, mas por si mesmo. Ele se julgava outro Berry Gordy, Clive Davis, ou Quincy Jones, e quando não aconteceu, ele ficou amargo e ressentido. Uma coisa sobre os Houstons, todos eles têm mais ego que qualquer um que tenha conhecido.  
No dia seguinte, eu tirei muitas fotos de todos ligados ao show, assim como algumas de Whitney comigo. Mal podia esperar para contar a minha família tudo sobre minha viagem e mostrar a eles fotos minhas de amizade com Whitney Houston. Ela era calorosa e amiga comigo, passando seu braço por cima dos meus ombros e sorrindo dentro dos meus olhos. Uma vez a ouvi dizer a Robyn, “Ele é grande, não é? Talvez eu devesse contratá-lo como meu guarda-costas.”
Quando cheguei em casa e desfiz as malas, descobri que meu rolo de filme havia sumido. Isso só podia significar uma coisa: Regina. Ela não queria que eu tivesse fotos de Whitney e eu juntos. Perguntei a ela e ela me disse que tinha deixado o meu junto com o dela numa Walgreen e que pegaria quando estivessem prontas. Eu tinha usado a câmera dela, mas comprado o meu próprio filme, portanto achei que fazia sentido. Perguntei pelo filme várias vezes nas próximas três semanas, e ela sempre me dizia que ainda não tinham ficado prontas. Sabia que ela estava mentindo, por isso na vez seguinte em que estive em seu apartamento, procurei e encontrei meu filme escondido no fundo do seu armário do banheiro. Não adiantou nada. Eu simplesmente peguei de volta e fiz várias cópias.

Depois que conheci Whitney e sua família, fui incluído na maioria de suas atividades. Michael e eu nos tornamos bons amigos e freqüentemente relaxávamos juntos, fumando maconha, e falando de mulheres. Seu meio-irmão, Gary Garland, estava sempre por perto também, mas eu não gostava dele tanto quanto gostava de Michael. Um dia nós três decidimos ir ao ginásio fazer uns arremessos, mas antes de sairmos, estávamos sentados em minha casa, fumando maconha e bebendo algumas cervejas. Michael tirou um pacote do bolso e perguntou se eu tinha bicarbonato de sódio e se podia pegar uma colher. Eu cresci nos conjuntos e conhecia o ritual para fumar cocaína. Eles me ofereceram um pouco, mas eu passei. Eu só fumei maconha.  
 Depois de levá-los de volta ao hotel, decidi subir com eles para mais um trago. Assim que entramos no lobby, vimos Whitney e Cissy saindo do bar, e uma olhada para o rosto de Whitney nos disse que ela estava furiosa. Ela veio batendo os pés até o Michael e disse, “Onde você esteve e por que não me disse aonde ia?”
“Estávamos no ginásio,” Michael disse. “Disse a Regina onde estaríamos.”
“Não dou a mínima,” Whitney gritou. “Você responde a mim. Se fizer essa merda novamente, não vai mais trabalhar pra mim!”
“Então me demita,” Michael gritou de volta, tão irritado quanto sua irmã. Ambos tinham temperamento explosivo, e uma coisinha de nada os detonava. Ele deu as costas, dizendo, “Vai se foder, Whitney,” e ela lhe deu uma bofetada no rosto.
“Sua vadia,” Michael gritou, e desferiu-lhe um soco no rosto – e ela lhe deu outro de volta! Eles estavam mano-a-mano, distribuindo socos como dois homens, e Cissy só assistia.
Depois de mais alguns socos, Cissy deu um passo a frente, levantou sua bengala, e bateu na cabeça de Michael. Com bastante força. “Já chega,” ela disse. “Michael, não machuque minha menina.”
Michael pegou seu boné do chão e subimos ao seu quarto para fumar um pouco de maconha. Ele me disse, “Ela é minha irmã e eu a amo, mas, Kevin, aquela vadia é maluca!”

O especial da HBO foi um enorme sucesso. Whitney recebeu excelentes críticas como não recebia há muito tempo e as vendas de seus discos estavam animadoras, especialmente do seu single do hino nacional. Sua turnê de shows de 1991 para o lançamento de I’m Your Baby Tonight estava programada para começar em abril com Lexington, Kentucky, uma das primeiras paradas. Ela estava viajando com sua equipe usual de cerca de vinte pessoas, incluindo, é claro, Robyn Crawford. Michael foi junto com guarda-costas de sua irmã, e havia outro, Dave Roberts. Depois de fazer o check-in no hotel, eles decidiram ir à corrida de cavalos antes do jantar. Quando voltaram ao hotel, o mundo desabou.
Estava no meu salão no dia seguinte quando o jornal chegou e eu não acreditei no que estava vendo. Um artigo dizia algo do tipo, “Superstar Whitney Houston envolvida em pancadaria em Lexington, Kentucky!” Declaradamente, Whitney, seu irmão e guarda-costas, Michael, e vários outros membros de seu grupo se meteram em uma briga de socos com fãs no Radisson Plaza Hotel. Eu corri para Regina para descobrir o que ela sabia a respeito, e ela me atualizou. Ela já tinha falado com Whitney naquela manhã, mas estava no aguardo de mais notícias.
Regina disse que eles estiveram no Red Mile Harness Racetrack e estavam se divertindo e bebendo. Contudo, quando começaram a perder dinheiro, seu humor mudou. Michael fica um pouco ríspido quando bebe, e o fato de ter perdido dinheiro na corrida só fez piorar. Quando eles voltaram ao hotel, continuaram com a bebedeira, assim como com o mau humor. A luta entre Evander Holyfield X George Foreman estava sendo transmitida pela TV, então todos decidiram assisti-la no lounge do hotel e esquecer o azar na corrida. Eles só queriam ficar sozinhos, mas foi impossível depois que avistaram Whitney. Correram para cima dela, pedindo autógrafos e se acotovelando, tornando impossível assistir a partida de Box.
Seu guarda-costas, Dave Roberts, que é britânico, educadamente pediu a todos que se retirassem, explicando que a Srta Houston gostaria de relaxar e assistir à luta; poderiam conseguir seu autografo na noite seguinte, após o show. Aparentemente eles eram fãs imbatíveis ou simplesmente mal-educados, porque se recusaram a sair e continuaram a infernizá-la. Finalmente Dave Roberts levantou-se e disse em voz alta, “Caiam fora, todos vocês! Srta Houston não quer ser incomodada agora.”
Os buscadores de autógrafos saíram, mas foram logo substituídos por outro grupo de fãs, e novamente Dave gritou, “Caim fora!” Espectadores dizem que o ânimo de Whitney estava ficando mais arrogante e o de Michael também.
Estava bastante barulhenta aquela noite com mais homens que mulheres no lounge, e estavam todos comendo a linda cantora com os olhos, tentando atrair sua atenção. Três homens estavam sentados numa mesa próxima e conversando bastante alto, rindo e cutucando uns aos outros, observando Whitney. A bebida estava fluindo e os homens se ofenderam ao serem mandados “cair fora” por um maricas inglês, então eles resmungaram alguns insultos e Michael e Dave revidaram na mesma moeda. Os homens então fizeram alguns insultos raciais e algumas observações sexualmente explícitas. Whitney já tinha agüentado o bastante. Ela tinha tentado ignorá-los e assistir à luta, mas eles não a deixavam em paz. Ela disse, “Venham, vamos sair daqui. Podemos assistir à luta em nossos quartos.”
Cada um foi para o seu lado, e Whitney, Michael, e Robyn pegaram o elevador para subirem para os seus quartos. Quando eles saíram do elevador no seu andar, os mesmos três homens estavam a sua espera, insistindo que Whitney desse um autógrafo seu. Michael pediu a eles “saiam da frente,” mas os caras estavam bêbados e agressivos, e um deles desferiu um soco em Michael. Ele revidou, derrubando o cara no chão. Os colegas do cara entraram na briga e insultos racistas começaram a voar. Um deles chamou Whitney de “esnobe cadela negra,” e foi então que Michael perdeu a cabeça. Ele não ia deixar um bando de brutamontes caipiras ofenderem sua irmãzinha.
O pau estava comendo. Eram três contra um, e mesmo com Michael dando conta, Whitney arremeteu. Ela pulou nas costas de um dos homens e começou a socá-lo, depois deu um soco certeiro na mandíbula de outro, tirando ele de cima de Michael.  Todos estavam gritando e esbravejando, socando e rolando no chão. As portas começaram a se abrir de cima a baixo no longo corredor. Os hóspedes do elegante, luxuoso Radisson Plaza Hotel não podiam acreditar no que viam. A elegante e linda superstar Whitney Houston, xingando como um marinheiro e distribuindo socos que deixariam George Foreman orgulhoso! Um dos hóspedes diz tê-la ouvido gritar, “Você vai morrer, seu filho da puta!”
Alguém chamou a polícia e eles apartaram e acalmaram os ânimos dos brigões. Mas ainda não tinha terminado. O trio de homens entrou com uma ação contra Whitney e Michael, acusando a ambos de agressão física.
Eu estava no apartamento de Regina quando Whitney ligou e contou a ela sobre o confronto. Ela estava rindo e dizendo que tinha dado “uma boa surra, querida.” Ela disse que não ia deixar aqueles “caipiras filhos da puta” machucar seu irmão. Michael estava bastante ferido. Além dos esperados cortes, arranhões, e contusões, ele teve uma concussão e alguns tendões distendidos. É um milagre que Whitney não tenha se machucado no vale-tudo, mas ela saiu dessa ilesa. A única coisa que a estava preocupando era a ameaça de um processo judicial, e ela perguntou a Regina como lidar com isso. Regina não achou que fosse algo com que se preocupar, mas eu sim. Disse a Whitney que se os homens a processasse, que ela os processasse também. “Sobre quais acusações?” ela perguntou.
“Invasão de privacidade,” eu disse, “assim como agressão física, lesão corporal e difamação. Afinal de contas, era o seu nome que estava estampado em todos os jornais.”
                Somente alguns dias mais tarde, Whitney e Michael receberam uma intimação para comparecerem no tribunal, e Whitney entrou com uma ação. Mas ela deu um passo à frente, declarando publicamente que os três homens tentaram suborná-la, exigindo $420.000 dólares dela ou eles venderiam a história para a imprensa. Isso não era verdade. Ela tinha inventado a história para parecer melhor, mas então, Whitney sempre foi um pouco dramática.
                A imprensa teve um prato cheio. Dificilmente passava um dia sem que um relato aparecesse em algum jornal sobre a batalha dos Houstons e como a diva do pop tinha voltado à sua juventude difícil, se encarregando dos bandidos que estavam espancando seu irmão. Ficou tão feia a coisa, que John Houston convocou uma coletiva de imprensa para dizer que estava “muito orgulhoso  por Michael ter mantido sua dignidade e profissionalismo, não respondendo aos insultos dirigidos a Whitney.”
                Ele continuou, “Em face dessa limitação, estes homens astutamente concluíram que a única forma de alcançar uma situação que atrairia a atenção da mídia sensacionalista que desejavam seria atacando Michael fisicamente sem motivo ou provocação. Estou igualmente orgulhoso de minha filha, Whitney, que não deixou que qualquer preocupação com a carreira a impedisse de proteger seu irmão. Expondo-se a danos físicos em potencial, ela arriscou-se a danos ameaçadores à sua carreira.”
                Whitney disse a Regina que ficou muito orgulhosa de seu pai por apoiá-la publicamente. Eles vinham se estranhando desde que ele havia fugido com sua empregada, mas isto pareceu aproximá-los. Whitney estava arrasada que a imprensa continuasse a caçá-la, a empurrar microfones no seu rosto e perguntar sobre a briga em Kentucky. “Como isso pode ter acontecido?” ela me perguntou ao telefone um dia. “Isso é tão ruim. Como Michael e eu pudemos nos deixar levar dessa forma?”
                Disse a ela que todos nós sabíamos que Michael tinha o pavio curto, especialmente quando estava bebendo, e que Whitney e seu irmão entrarem no que era basicamente um bar “de brancos” era um convite à encrenca. Imaginei que provavelmente não houvesse muitos negros lá naquela noite, não em Lexington, Kentucky.
                “Tentamos ignorá-los,” Whitney disse. “Só queríamos tomar uns drinks e assistir à luta, mas eles não nos deixavam em paz.”
                O advogado do condado de Fayette, Norrie Wake, pesquisou o incidente e entrevistou testemunhas de ambos os lados da balburdia, finalmente determinando que o campo de Whitney era o mais confiável. Ele declarou que eles haviam sido injustamente provocados e que “evidencias contraditórias teriam impossibilitado a condenação.”
                O fato dos três homens terem ido direto à imprensa com sua história provava que estavam buscando qualquer notoriedade que pudessem colher deste lamentável incidente.
                “Gostaria que estivesse lá, Kevin,” Whitney me disse. “Os desgraçados teriam morrido!”

                Quando a turnê chegou a Miami, Whitney pediu para Regina ver se eu poderia ir junto com eles como seu guarda-costas. Michael estava viajando com ela, assim como seu meio-irmão mais velho, Gary, mas por alguma razão ela me queria junto também. Eu fiquei entusiasmado e concordei rapidamente. Quando cheguei a Flórida, Whitney me deu meu próprio macacão I’M YOUR BABY TONIGHT, que todos que trabalhavam para ela vestiam, e também uma jaqueta de cetim feita sob medida com o meu nome bordado.
                Tão empolgado como estava por estar viajando com Whitney Houston e experimentando todas as vantagens de estar com uma superstar, eu logo percebi que essa era a turnê do inferno. Vi de antemão o que estava acontecendo nos bastidores, e não era uma visão muito agradável. Havia tanto estresse e tanta discussão o tempo todo que não via como Whitney conseguia fazer um show decente.
                Todos estavam usando drogas e bebendo e pulando de cama em cama. Bobby Brown ficava ligando para Whitney o tempo todo, e isso deixava Robyn com tanto ciúme que ela dormia com os dançarinos do grupo e várias vezes até mesmo com Michael só para irritar Whitney. Quaisquer dançarinos que sobravam eram passados entre Michael e Gary. A ameaça de violência sempre espreitava logo abaixo da superfície. Era um caos total.
                A turnê do show estava em sérios apuros por conta da imprensa negativa e da atitude de Whitney, mas seguiu mancando com Whitney dando apenas apresentações indiferentes. Ela sempre se atrasava, às vezes até duas horas, e era recebida por uma multidão vaiando de raiva. Para adicionar insulto à injuria, ela não se dava ao trabalho de desculpar-se ou sequer inventar uma desculpa por seu atraso; ela simplesmente não dava a mínima. Ela inda tinha muitos fãs leais, contudo, e quando eles tentavam se aproximar para pedir autógrafos, ela os congelava em seus calcanhares com o olhar mais frio e intimidador imaginável. Alguns de seus fãs resmungavam para a imprensa que “Whitney Houston é uma verdadeira vaca pessoalmente. Ela trata os seus fãs como lixo. Nunca mais vou comprar um vídeo seu novamente.”
               
                Em agosto de 1991, minha família finalmente teve uma chance de conhecer Whitney quando ela fez um show no World Music Center em Tinley Park, Illinois. Ela conseguiu que minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs tivessem assentos na primeira fila, e eu tive orgulho de fazer parte de sua equipe. Ela foi doce com minha mãe e fez a maior cerimônia com ela. Mamãe ficou encantada por conhecer uma estrela tão grande e eu fiquei grato a Whitney por ser tão gentil.

                Mil novecentos e noventa e um foi o ano mais horrível na vida de Whitney, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Como a Rainha Elizabeth uma vez falou sobre a família real, “Foi um annus horribilis” (um ano horrível). Whitney começou a chamar o seu pessoal na Nippy, Inc. de “a Família Real,” então quando ouviu as observações da Rainha Elizabeth na TV, ela concordou 100 por cento. Ela me disse uma vez, “Tem tanta apunhalada pelas costas e mentiras e inveja e intriga acontecendo ao meu redor, me sinto uma dos Windsors!”
                Ela estava estressada e, sem dúvida, preocupando-se cada vez mais com a queda nas vendas dos ingressos para os seus shows. Alguns shows foram na verdade cancelados por falta de procura, mas a Família Real continuava a mancar assim mesmo.
                A voz de Whitney já não era mais a mesma de antes. Ela estava rouca e um pouco falhada e não conseguia mais alcançar aquelas notas altas e limpas que uma vez tinham sido sua marca registrada.  A imprensa reportou que ela estava sofrendo de um “problema na garganta,” mas eu sabia qual era a real razão. Ela estava tragando aquela erva mais e mais enquanto sua vida desmoronava ao seu redor. Regina disse que Whitney sempre recorreu à maconha para relaxar, assim como todos na Família Real. Mas neste último ano ela começou a acrescentar uma pequena dose de cocaína à maconha antes de enrolar o baseado.
                Na turnê eu passei a conhecer Robyn melhor e, para minha surpresa, eu gostei dela. Tinha ouvido tantas coisas negativas a seu respeito de Regina e Cissy, que esperava um verdadeiro dragão, mas ela era legal. Ela se vestia como homem onde quer que fosse. Se ela não estava vestindo um terno masculino, ela aparecia de jeans e camisa masculina. E ela também usava sapatos de homens. Ela era loucamente apaixonada por Whitney e não se importava que soubessem. Ela me disse que vinha cuidando de Whitney desde quando eram adolescentes, quando as outras crianças mexiam com elas e as chamavam de “sapatas” e ela tinha tido que “dar algumas surras.” Ela tinha personalidade forte e era dominadora por natureza, então era normal para ela que protegesse a pessoa que amava.

                 Da Flórida nós viajamos para a Virginia, Nova Iorque, Filadélfia, Nova Jersey, Detroite, e Los Angeles. A essa altura eu já me sentia um velho profissional experiente e já sabia mais sobre Whitney Houston que jamais quis realmente saber. Esta senhora complexa tinha muitos lados, e eu era apresentado a cada um deles diariamente.
                No final de outubro de 1991, o Thirteenth Annual Black Achievement Awards ia acontecer em Los Angeles, e eu ia como convidado de Whitney. Ficamos no Westwood Marquis, e Whitney ligou, pedindo a Regina para ligar para o Bobby Brown e dizer a ele que ela tinha que ir ao ensaio e que encontraria com ele mais tarde. Depois de uma soneca e de uma ducha, fui ao teatro assistir ao ensaio. Todas essas estrelas de quem tinha ouvido falar ou admirava estavam lá: Patti LaBelle, Dionne Warwick, Gladys Knight, Della Reese, Mario Van Peebles, Jasmine Guy, e Wesley Snipes, entre outros. 
               Quando estávamos deixando nosso quarto de hotel a caminho do show naquela noite, Regina disse, “Kevin, por favor, não tente socializar com nenhuma das celebridades, está bem? A segurança vai ver que você é um joão-ninguém e vai te botar pra fora.” Fiquei chocado e magoado, mas mantive minha boca fechada, recusando-me a deixar que ela estragasse essa noite mágica pra mim.
                John Houston estava esperando do lado de fora, sozinho, e perguntou se queríamos uma carona para o teatro. Quando entramos no lindo Lincoln Town negro, Regina sussurrou, “Será que Nippy sabe que pagou pelo carro do Papai hoje à noite?”
                Sentei-me com John e Regina me beijou e disse, “Tenho que ir fazer o meu trabalho. Vejo você nos bastidores depois do show.”
                Mario Van Peeble apresentou Patti LaBelle, e quando ela entrou no palco, ela olhou direto para mim e me deu um largo sorriso. Ela cantou seu novo lançamento, “Somebody Loves You, Baby,” e durante todo o número ela manteve contato visual comigo. Então ela fez o inimaginável: ela desceu e fez um sinal para que eu me juntasse a ela no palco. “Vamos lá, querido,” ela disse. “Venha dançar comigo.” Dançamos juntos e a plateia gritava e aplaudia e Patti disse, “Cante comigo, querido,” e eu cantei.
                Que barato isso deu. Sentei-me na minha poltrona para assistir ao restante do show, mas não consegui me concentrar.  Tudo em que conseguia pensar era naqueles poucos momentos mágicos no palco.
                Como descrito antes, fui aos bastidores onde Patti elogiou minha voz e perguntou se eu tinha uma representação. Caso não tivesse, ela disse, estaria interessada em agenciar minha carreira. Eu disse, não, não tinha, mas do nada, Whitney veio correndo e disse, “Sim, ele tem. Eu vou gerenciar sua carreira.”
                Patti e eu conversamos por mais alguns minutos, e ela perguntou se me veria na Festa de Comemoração e eu disse, “Claro, estarei lá,” mas Whitney tinha outra coisa em mente.  
                “Quero que você e Regina venham a minha casa para uma reuniãozinha,” ela disse. “Quero que conheça Bobby.”
                Preferia bem mais ter ido à festa, mas sabia que não devia dizer nada. Quando Whitney fazia uma convocação, o melhor era aparecer!”
                Só nós cinco estávamos ali: Robyn, Whitney, Bobby, eu, e Regina. Whitney vestiu um pijama de seda e nós apenas relaxamos, bebemos cerveja, fumamos maconha, e fofocamos a respeito do show. Bobby também era diferente do que tinha ouvido falar dele. Ele era pé-no-chão e inteligente e maduro para sua idade. Gostei bastante dele, mas ficou claro quem não gostou nem um pouco. Robyn ficou sentada ali a noite toda, encarando ele.  

                A Família Real estava a caminho de Londres. Nunca tinha saído dos Estados unidos antes, então estava empolgado. Contudo, não viajei com Whitney. Juntei-me à turnê mais tarde. Já tinha estado fora tempo demais e queria ver minha esposa e filhos antes de me aventurar no exterior. Na Inglaterra, peguei um taxi no Heathrow Airport e parti rumo a Chelsea Harbor, parando no caminho para comprar rosas para Regina e Whitney.
                Regina me encontrou no hotel e tivemos tempo apenas para um rápido rala-e-rola antes de nos encontrarmos com os outros. Whitney estava agendada para falar no Picadilly Park a um grupo de crianças portadoras do vírus da AIDS. Os empregados permanentes estavam todos lá com Whitney quando Regina e eu saímos do elevador: Michael e sua namorada, Robyn, Dave Roberts, Sylvia, e Smitty, o motorista. Nos empilhamos em uma van e partimos, todos rindo, fazendo piadas, e nos divertindo. Tinha sentido falta de estar com eles. Whitney estava conversando comigo e Robyn ficava interrompendo até que finalmente Whitney virou-se para ela e disse, “Cala a porra da boca antes que eu te bote pra fora daqui!”
                Eu abafei um riso, achando que ela estava brincando, mas ela não estava rindo. “Eu estou falando sério, Kevin,” ela disse. “Eu vou dar uma surra nessa vadia e largá-la no acostamento. Pergunte para ela o que aconteceu ontem nos pedalinhos.”
                “Hah,” Robyn bufou. “nada aconteceu nos pedalinhos e você sabe muito bem.”
                “Sua mentirosa de merda,” Whitney gritou. “Sabe muito bem, porque eu te dei uma surra e te fiz voltar andando para o hotel!”
                Robyn encarou e resmungou, “Nós duas batemos, está bem?”
                Eu ainda não estava acostumado ao linguajar de Whitney. Ela xingava como algum tipo vulgar do gueto. Não acho que ela era capaz de falar uma frase sem usar a palavra fuck em algum lugar. E então, em público, ela vestia a conduta de senhora refinada tão facilmente quanto colocar um vestido por cima da cabeça, repentinamente tornando-se a própria jovem que tinha sido criada na igreja. Era um contraste e tanto.  
                  Fomos recebidos no parque por vários policiais, que nos conduziram ao palco, e Whitney agarrou minha mão, me pedindo para ficar próximo a ela. Havia crianças em toda parte, gritando, “Whitney! Whitney! Whitney!”
                Ela entrou correndo no palco, comigo logo atrás, e começou o seu discurso, dizendo às crianças o quanto ela os amava e como todas elas estavam em suas orações todas as noites. Ela disse que a força e o amor de Deus estariam com eles nesses tempos difíceis, e que sempre lembrassem que Deus os amava e que estava olhando por eles. Ela então pulou do palco e estendeu os braços e as crianças se achegaram, engolindo-a. Ela estava chorando e abraçando e beijando-os enquanto chamavam o seu nome, e eu fiquei realmente comovido. Pensei, Uau, ela realmente ama de verdade essas criancinhas! Dezenas de fotógrafos fervilhavam em redor, tirando fotos do adorável rosto marcado por lágrimas de Whitney.
                Ela então se virou e fez um sinal para mim e eu peguei sua mão e a ajudei a subir de volta ao palco. Ela ainda estava sorrindo e acenando, mas baixinho ela disse para mim, “Me tira daqui, para longe dessas crianças mal-cheirosas e de bundas bolorentas!” Olhei fico para ela e seus olhos estavam secos; as lágrimas tinham sumido completamente.
                Mais tarde no jantar estávamos conversando e ela me disse que eu a fazia lembrar do Bobby Brown em muitas coisas. “Vocês dois são gente boa,” ela disse. “Posso ver o ouro nos olhos de vocês. Vocês são verdadeiros.” Ela perguntou qual era o meu signo, e quando eu disse a ela que era aquário, ela disse, “Bobby também. Quando é o seu aniversário?”
                “Cinco de fevereiro.”
                “Só pode estar brincando. Esse é o dia do aniversário do Bobby também. Não é de admirar que me lembre tanto ele.” Ela disse que era leonina e que aquário era o seu signo do amor.
                Na noite seguinte enquanto Whitney estava se apresentando, eu perguntei a Robyn o que ela achava do Bobby Brown, e ela bufou e disse que ele era um punk (rebelde) – e que não era bom o bastante nem para enxugar os pés de Whitney.

                    Não estava tão certo disso. Tinha visto certo brilho nos olhos de Whitney quando ela falava dele, e tinha um pressentimento de que ligaria para ele quando voltássemos aos Estados Unidos. E então as portas do inferno seriam abertas.

Nenhum comentário: