quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Capítulo 8: Quem é o Verdadeiro Bobby Brown?

8

Quem é o Verdadeiro
Bobby Brown?


O ano de 1991 terminou não com uma celebração, mas com um choque quando John Houston casou-se com Peggy Griffith no dia 28 de dezembro. O casamento aconteceu no condomínio de John em Fort Lee, Nova Jersey, presidido pelo Reverendo Harry Spellman da Macedonia Church of Christ. Havia menos que uma dezena de convidados e nenhum membro da família imediata de John, nem seus filhos e certamente nem Whitney. De comum acordo, todos boicotaram as núpcias. Quando a imprensa tentou abordar Whitney para um comentário, foram surpreendidos com um silêncio sepulcral e frio da Família Real.
                Em um dos raros momentos em que Robyn interagia civilizadamente com Regina, ela disse que John só tinha se casado com Peggy porque ficou sabendo que Cissy estava tendo um caso com o pastor de sua igreja e queria magoá-la e envergonhá-la tanto quanto ela o tinha envergonhado. Embora estivessem separados há muitos anos, John ainda sentia certo “domínio” no que dizia respeito à Cissy, e o caso o enfureceu e humilhou. Ele ainda queria que a mídia acreditasse que os Houstons eram uma família cristã amorosa, unida e temente a Deus, que adoravam a Deus e se abraçavam em momentos de necessidade.
                Muitas vezes em diferentes eventos públicos e reuniões de negócios, vi John andar de um lado para outro com ares de superior, humilhando as pessoas, dando ordens insultuosamente como um sargento, fazendo com que todos soubessem que ele estava encarregado da Nippy, Inc., e conseqüentemente de Whitney. Uma vez eu disse a Regina, “Sabe, John daria um belo ditador em algum pequeno país de terceiro mundo!”
                Mas por toda sua pompa e devaneios bombásticos, ele se sentia diminuído por trabalhar para sua filha, que sem ela, ele estaria de volta a Newark fazendo um trabalho braçal. Ele estava ganhando $125.000 dólares por ano como seu “empresário,” mas isso era insignificante perto do que Whitney ganhava. “É só uma troca idiota,” um membro da Família Real me disse. “Ela está lhe jogando um osso para que ele não se sinta um fracasso total.”  
                Depois que John casou-se com a ex-empregada de Whitney, ela entrou em depressão profunda e ficou isolada em sua casa sem falar com ninguém exceto Robyn, Regina, e alguns poucos amigos mais chegados.
                Whitney sentiu-se traída por seus pais. A turnê de 91 havia provado ser uma amarga decepção, a primeira vez que uma turnê de Whitney Houston não havia sido um sucesso. Por ela ter terminado do jeito que terminou, foi quase mais do que Whitney podia suportar. As festividades de fim de ano foram muito tristes para a Família Real em 1991 e Whitney estava temendo o que 1992 lhe reservava.
                Como eu havia previsto em Londres, assim que Whitney voltou, ela entrou em contato com Bobby. Se em algum momento alguém precisava de um pouco de amor e carinho, esse alguém era Whitney, e obviamente o bad boy Bobby Brown sabia bem como aplicá-lo. Ele estava morando em Atlanta com o seu filho, Landon, e seu pai, Herbert.
                Depois que seu caso tornou-se público, Whitney disse a um repórter que havia se sentido atraída por Bobby desde o princípio porque ele era muito diferente e porque ele não a colocava em um pedestal como a maioria dos homens. “Antes de conhecer Bobby, eu sempre esbarrava com aquela atitude ‘Como posso te mostrar que eu valho a pena?’ dos caras, mas com Bobby foi simples. Ele sabia que o que eu precisava era de amor.”
                Whitney embarcava para Atlanta para ver Bobby, mas ligava para Regina antes para pedir que se Robyn perguntasse por ela, para ela dizer que “não sabe onde estou.” E Robyn ligava. E ligava. Ela exigia saber onde Whitney estava, mas Regina não dizia. “Se ela quisesse que soubesse onde ela está, ela mesma teria dito.”
                Eu podia ouvir Robyn xingando e gritando pelo telefone: “Sua vadia mentirosa. Vou te dar uma surra!”
                “Vai se foder, sua sapatão,” Regina revidava. “Não tenho medo de você.” Ela desligava, e segundos depois Robyn ligava novamente, mas Regina não atendia. Ela deixava a secretária eletrônica atender. Robyn gritava obscenidades, ameaçando Regina com danos físicos e até mesmo de morte a menos que ela atendesse ao telefone e dissesse onde Whitney estava. Regina só ria. Ela adorava atormentar Robyn e agora ela podia fazê-lo com a benção de Whitney. As ligações continuavam a noite inteira, mas nós desligávamos o som para não sermos incomodados.

                Um dia eu estava no apartamento de Regina sozinho quando Robyn ligou, e ela parecia tão infeliz, meu coração se compadeceu dela. Quando ela percebeu que eu não ia desligar o telefone, ela começou a chorar e disse que seu coração estava sendo partido. Ela disse que sabia que Whitney estava com algum cara, e que suspeitava que fosse com aquele gangster punk, Bobby Brown.
                Ela disse, “Sou a única pessoa na vida de Whitney que deu a ela amor incondicional; todos os outros a usam, até mesmo os pais dela. Principalmente os pais dela. Ambos pegam carona na aba dela. Se não fosse por Whitney, eles estariam vivendo de auxílio-desemprego. Não entendo por que ela os sustenta. Eles nunca a ajudaram – financeiramente, quero dizer. Só depois de ela começar a ficar famosa que eles começaram a mostrar todo seu pseudo-apoio e a louvar a Deus por sua talentosa pequena Nippy. Quando Whitney e eu nos conhecemos, era bem diferente. Nós morávamos em uma quitinete suja minúscula, sem geladeira e pouquíssima comida, mas ninguém nos ajudava. Ninguém nos estendia uma mão amiga. A única mão amiga que já ofereceram a Whitney foi a minha.”
                Ele prosseguiu dizendo que todos os Houstons a odiavam e queriam que ela morresse; eles a culpavam por Whitney ser gay. “Mas ela é mais bi que gay,” Robyn disse. “Ela gosta de homens também e isso acaba comigo.”
                Robyn tinha bons motivos para estar preocupada. A amizade entre Whitney e Bobby estava desenvolvendo-se rapidamente em algo muito mais profundo. Ela passava todo tempo livre com Bobby e falava abertamente à imprensa sobre ele. E isso era algo que ela nunca tinha feito no passado, considerando o que sentia pela mídia. Mas de repente fotografias começaram a aparecer nos jornais de uma Whitney sorridente agarrada ao braço de Bobby e praticamente sussurrando, “Ele é um homem legal, pé-no-chão e sexy.”
                Quando estava no apartamento de Regina, percebia que ela às vezes levava o telefone para o banheiro para falar, e quando perguntava, ela dizia, “Não é nada,” mas eu sou um cara curioso, então um dia eu fiquei à porta e ouvi. Ela estava conversando com o editor de um dos jornais, vendendo informação sobre Whitney e Bobby!
                Isso me chocou e eu passei a ouvir outras vezes que ela atendia ao telefone no banheiro. Em várias ocasiões ela contava histórias sobre Michael Jackson também. Sabia que ela era amiga do agente de publicidade de Michael, Bob Jones, e em muitas ocasiões ele ligava e contava a ela o fiasco mais recente na vida de seu cliente. Regina então ligava para os jornais e relatava a história, mudando apenas o bastante para que Jones não soubesse de onde vinha a notícia.
                Eu finalmente a confrontei porque senti que o que estava fazendo era errado. Ela não só estava traindo sua patroa, Whitney, como também sua amizade com Jones. Ela simplesmente deu de ombros e me mandou crescer. “Muitas estrelas plantam histórias de si mesmas nos jornais. Vamos encarar os fatos, onde mais eles conseguem dez milhões de leitores por semana. É muita publicidade, querido.”
                Por causa de sua amizade com Bob Jones, eu soube a respeito das alegações contra Michael Jackson muito antes de tornarem-se publicas. Rumores vinham flutuando há anos a respeito da preferência sexual de Michael, ou até mesmo se ele tinha alguma, e era notório no ramo que ele era gay. Era também do conhecimento de todos que ele se importava profundamente com crianças e que tinha doado milhões de dólares para diferentes instituições de caridade em favor delas. Mas descobrir que sua preferência sexual era por crianças veio como um choque para muitas pessoas.
                “Isso vai destruir a carreira dele,” Regina disse.

                Pela primeira vez em muitos meses, Whitney estava feliz e aguardando ansiosamente por seu futuro. Ela decidiu que estava na hora de assumir um compromisso sólido com Kevin Costner a respeito de fazer o filme com ele. Sua desastrosa turnê de 1991 deixou uma cicatriz profunda, e ela queria distanciar-se da música por um tempo. Seu caso com Bobby era sua experiência mais gratificante e ela dizia a todos que queria casar-se com ele e ter “muitos e muitos filhos.”
                A mídia entrou em um crescente frenesi, brigando uns com os outros, tentando cavar qualquer informação que pudessem sobre o novo homem na vida de Whitney. Quem era esse jovem bad boy do hip-hop que tinha conseguido o que nenhum outro homem tinha sido capaz de fazer – roubar o coração da Queridinha da América? Ele nasceu Bobby Baresford Brown em 1969, o que o tornava seis anos mais novo que Whitney, apenas vinte três anos de idade aos vinte nove dela. Era uma grande diferença de idade e alguns tablóides acusaram-na de pegar um menino novo o bastante para que ela pudesse criá-lo a sua maneira.
                “Bobby nunca foi um garoto,” disse o produtor Teddy Riley. “Ele nasceu e se criou na rua. Ele estava correndo com as gangues quando tinha dez anos de idade, e com doze, já havia sido esfaqueado e baleado e já tinha visto muitos de seus colegas serem assassinados na rua.”
                A mãe de Bobby, Carole, disse aos repórteres que a única coisa que manteve o seu filho vivo foi o sonho de um dia tornar-se um cantor famoso. Em meados dos anos oitenta, quando estava com cerca de quatorze anos, ele juntou-se a um grupo chamado New Edition, uma versão rap e rústica do antigo Jackson Five. Eles eram bem famosos para um bando de garotos, especialmente com as adolescentes, mas Bobby queria mais. Ele não queria apenas ser “só um dos caras.” Ele queria uma carreira solo, então em 1986 ele deixou o grupo e saiu por conta própria. Foi uma boa jogada. Seu primeiro disco, “My Prerogative,” chegou ao topo das paradas. Ele tinha acabado de fazer dezessete.
                Seu primeiro álbum não foi tão bem como esperava, mas seu segundo, Don’t Be Cruel, vendeu oito milhões de cópias em 1988. Durante sua turnê ele rasgava o palco com seus giros sensuais e movimentos lascivos das mãos (simulando masturbação), conferindo-lhe o título de “Bad boy atrevido do R&B,” que logo foi encurtado para “Bad Boy.”
                Na turnê mundial de 1989 ele foi preso na Geórgia por “comportamento lascivo e licencioso,” o que fez ‘cair sua ficha’. Ele decidiu que era melhor estabelecer suas prioridades se quisesse se tornar um grande astro. Quando conheceu Whitney mais tarde naquele mesmo ano no Soul Train Music Awards, ele percebeu que a bela diva do pop era sua prioridade número um e determinou-se a conquistá-la. Não ia ser fácil, não com Robyn e Cissy contra o relacionamento. Cissy o achava “só um garotinho” e incompatível para completar. Ele tinha dois filhos fora do casamento e não mostrava sinais de comprometimento. Ele era “feio e vulgar” no palco, fazia careta para as convenções, e Cissy duvidava seriamente se ele alguma vez já tinha posto os pés em uma igreja. 
                Ela tentou avisar Whitney sobre Bobby, mas sua filha não estava ouvindo nada do que sua mãe tinha para dizer, não sobre sua carreira ou sobre sua vida amorosa. Enquanto muitos se rebelam na adolescência, Whitney estava se rebelando agora nos seus vinte e muitos anos. Ela tinha estado sob o controle de sua mãe por tempo demais, e não queria mais isso. Ela achava a interferência de Cissy em sua vida intrusiva e irritante, então passou a excluí-la completamente. Ela era uma mulher adulta de quase trinta anos, ganhando uma quantidade impressionante de dinheiro, e conhecida em todo o mundo. Então, quem era Cissy para dizer a ela o que fazer?
                Robyn tinha usurpado o poder de Cissy há muito tempo, deixando-a sentir-se indesejada e sem importância. Ela reclamava com os amigos que não conseguia chegar perto de sua própria filha sem antes marcar uma hora e que “a opinião de uma mãe não valia de nada mais.” Mas isso não a impediu de verbalizá-las para qualquer um que quisesse ouvir. Ela detestava que no primeiro grande papel de Whitney no cinema ela tivesse um caso inter-racial. Ela dizia para os amigos que não queria ver sua filha envolvida intimamente com um homem branco, acrescentando, “Nós todos trabalhamos muito para nos arriscarmos dessa maneira.” Como sempre, ela estava tentando se colocar no lugar de sua filha, como se fosse o seu filme, seu primeiro papel principal, ela tinha sido a que tinha trabalhado muito para ter essa chance. A triste verdade era que ela não desistia. Este era o mais perto que havia chegado da fama, e agora ela estava sendo empurrada até mesmo para fora do brilho distante do foco de luz.

                Em fevereiro de 1992, Whitney voou para Miami para o início das filmagens de The Bodyguard, mas antes de partir, contou a seus pais que estava grávida e que Bobby Brown era o pai. Regina me disse que Cissy “pirou. Ela ficou furiosa e começou a berrar e delirar sobre o quanto Bobby era um punk e que esse relacionamento nunca ia dar certo – foi o maior erro da vida de Whitney.” Mas Whitney disse a Cissy que estava apaixonada, que ia ter esse bebê, e fim de papo!   
                Kevin Costner estava produzindo sozinho o filme e tinha feito bem o seu dever de casa. Como era hábito seu com qualquer papel que pegava, ele tinha pesquisado meticulosamente, aprendendo tudo o que podia sobre a ocupação perigosa de um guarda-costas. Ele tinha contratado guarda-costas para si no passado e entendia a relação entre segurança e celebridade. Como outros grandes astros, Costner havia tido sua parcela de fãs excessivamente zelosos e havia sentido o medo que vem de estar cercado de milhares de estranhos gritando histericamente, todos querendo um pedaço dele.
                “Há sempre um elemento de medo quando uma celebridade sai em público,” ele disse. “Todos nós nos lembramos de John Lennon, Rebecca Shafer, os Kennedys, os Presidentes Ford e Reagan, e tantos outros que foram baleados ou mortos por lunáticos dementes. É assustador, mas saber que temos um guarda-costas ajuda.”
                Whitney concordava. Diversos guarda-costas sempre viajavam com ela, e ela tinha reforçado sua segurança ainda mais depois do fiasco em Kentucky. Tanto ela quanto Costner entraram no filme com uma boa bagagem pessoal sobre estrelas e guarda-costas, e lhes serviria bastante durante as filmagens.
                No final de março, menos de um mês de filmagens, Whitney sofreu um aborto espontâneo. Bobby estava gravando em Atlanta quando ela ligou para ele, e ele correu para Miami. “Foi quando a Família Real começou a acreditar que talvez este rapaz estivesse realmente levando Whitney a sério e ela a ele,” Regina disse. “Até aquele momento, todos nós achávamos, ‘Ah, ele é apenas mais um bonequinho. Ela vai se cansar e tudo vai voltar ao normal.’”
                No entanto, não foi esse o caso. A tragédia os aproximou ainda mais. Whitney ficou de coração partido. Ela queria filhos, e o mais importante, que fossem filhos do Bobby. Deprimida e triste, ela sempre ligava para Regina, chorando pelo telefone. Não mais que dois dias depois de seu aborto, o National Enquirer chegava às bancas com esta manchete: “Whitney Houston Grávida Perde Filho de Seu Amor!”
                Whitney ligou para Regina em fúria, exigindo saber quem na Nippy, Inc. a havia traído. Ela sabia que tinha de ser alguém de dentro a vazar a informação, pois bem poucas pessoas sabiam. Regina prometeu investigar, mas eu suspeitei que fosse ela mesma. Ela já vinha vazando artigos para os jornais há anos, e para encobrir-se ela sempre pedia que o cheque viesse nominal a um de seus parentes ou amigos para que não pudesse ser rastreado até ela.
                Jornais legítimos começaram a ligar para Whitney e pedir que confirmasse ou negasse o artigo do Enquirer, mas ela disse a eles que não queria discutir sua vida privada, na esperança de que eles a deixassem em paz em uma hora tão trágica. Ela já devia ter se preparado. Seu silêncio só fez estimular o apetite deles, então ela relutantemente falou com um repórter do USA Today, esperando que assim todos os outros repórteres saíssem de cima dela.
                “Digamos que eu tenha tido um aborto espontâneo. Isso é da minha conta. Sabe o que estou dizendo? Acontece apenas que aconteceu enquanto eu estava fazendo um filme, em um set de filmagem. As pessoas ouvem falar e ligam para os jornais e contam para eles. Abortos acontecem às mulheres o tempo todo. Acontece que eu sou essa – essa pessoa, Whitney Houston.”
                As filmagens de The Bodyguard continuaram e Whitney mergulhou por completo no trabalho, esperando afastar sua mente da perda do seu bebê. Bobby ligava todos os dias e voava para a cidade quando sua agenda permitia. Eles saíram para jantar uma noite, e no caminho de volta pra casa, Bobby pediu sua mão em casamento. Ele estendeu uma caixa com uma pequena aliança e um modesto diamante e de certa forma conseguiu manter um semblante sério até que ela dissesse sim. Depois, rindo como uma criança, ele jogou aquele fora e sacou um magnífico diamante de dez quilates que a deixou sem fôlego.
                “Ele é simplesmente tão fofo,” Whitney disse a Jamie Foster Brown, editora de Sister 2 Sister. “Ele brincou comigo como se eu fosse um Atari.”
                “Eu só queria ver se ela se casaria comigo mesmo que eu não tivesse nada,” ele disse sorrindo.
                “Eles são duas crianças,” Jamie Brown diria mais tarde, comentando sobre a referência de Whitney ao jogo Atari. “No esquema das coisas, nunca lhes foi permitido desenvolver em termos de crescimento da personalidade como uma pessoa normal.”
                Quando eu ouvi falar do noivado, sabia que a merda ia bater no ventilador, e bateu. Estava em Los Angeles com Regina, e enquanto ainda estávamos deitados na cama pela manhã, bem cedo, ouvimos alguém socando a porta no andar de baixo. Eu atendi e Robyn estava lá parada, parecendo a morte. Seu rosto estava desfigurado e seus olhos estavam inchados e fundos. Disse a ela que Regina e eu ainda estávamos na cama, mas que subisse se quisesse conversar.
                Ela começou a chorar então, engolindo soluços histéricos que tremiam todo o seu corpo. Ela se curvou, apertando o estômago como se estivesse sentindo dor física real enquanto cambaleava escada acima comigo. Fiquei preocupado e achei que ela podia estar tendo uma crise de apendicite ou coisa parecida e perguntei se queria que eu chamasse um médico.
                “Não,” ela resmungou, e sua voz estava muito baixa, como de uma pessoa moribunda se esforçando para falar. “Não vou deixá-la fazer isso. Ela não pode se casar com Bobby. Não vou permitir.”
                Ela ainda estava dobrada, apertando o estômago, e lágrimas estavam encharcando seu rosto. Pus meu braço em torno de seus ombros e gentilmente a conduzi até a cama e pedi que descansasse um minuto. Ele se deitou de lado, trazendo seus joelhos para perto do peito e apertando-os com seus braços em volta deles. Ela estava gemendo e tremendo, seus ombros se elevando de dor. Ela continuou resmungando sem parar, “Ela não pode fazer isso – eu não vou deixá-la fazer isso, ela não pode casar-se com ele.”
                Eu estava muito desconfortável e me sentindo como um peixe fora d’água. Não sabia o que fazer então desci para ver se fazia um café. Senti que devia deixar as duas mulheres juntas por isso me ocupei enquanto permaneciam lá em cima. Mais ou menos meia hora depois, elas desceram e Robyn já tinha se recomposto. De fato, ela parecia bem mais com a velha Robyn que estava acostumado a ver. Ela agradeceu e foi embora.
                Olhei para Regina e ela balançou a cabeça e disse, “Ela está mal, querido. Ela disse que se Whitney insistir nesse casamento, ela se mata.”

                Quando eu voltei para Chicago, Whitney me ligou e disse que não tinha esquecido sua promessa de gerenciar minha carreira artística. Ela disse que tinha ficado encantada com minha voz quando cantei com Patti LaBelle e que achava que eu tinha o que era necessário para ser um grande astro. Ela estava ocupada filmando The Bodyguard, mas pediu que entrasse em contato com seu pai e marcasse um horário no estúdio para gravar uma fita demo. Ela disse que pagaria por tudo.
                Eu nem perdi tempo juntando minha banda. Entramos no estúdio e gravamos três canções, mas nunca consegui achar o John para tratar do pagamento do estúdio. Cerca de três semanas já tinha se passado e eu simplesmente disse, “Dane-se,” e paguei a conta de $2.800 dólares sozinho. Estava esperando ansiosamente que Whitney terminasse o filme para que pudesse ouvir minhas fitas, mas isso demoraria ainda alguns meses. Mantive-me ocupado com meu salão de beleza e outros interesses comerciais, mas um olho estava sempre no calendário.
                Quando Kevin Costner aproximou-se pela primeira vez de Whitney a respeito de fazer o filme com ele, ele havia prometido a ela que ele a protegeria e se certificaria de que ela não seria chamada para fazer nada com o que não se sentisse à vontade para fazer. Depois de ler o roteiro, ela encontrou-se com Costner e disse a ele que achava que Rachel, a personagem que estava interpretando, era difícil demais e mal-intencionada.
                “Vão pensar que fui escalada para o papel de mim mesma com certeza,” ela disse, rindo. “Todo mundo está sempre dizendo o quanto sou mal-intencionada. Me sentiria melhor se Rachel fosse um pouco mais simpática, um pouco mais suave. Quero dizer, obviamente, todos nós temos os nossos dias, mas no roteiro ela está de mau  humor o tempo todo.”
               Costner concordou e a parte foi reescrita para satisfação de Whitney. Eu lhe dou bastante crédito por aceitar um projeto tão exigente como The Bodyguard quando na verdade ela não tinha tido absolutamente nenhuma experiência como atriz. Os críticos tiveram sua chance de dizer o que achavam, é claro, especulando se a diva do pop conseguiria fazer a transição para estrela de cinema, e a revista Rolling Stone cercou-a para uma entrevista.
                “Estava preocupada que me perseguissem antes mesmo de me darem uma oportunidade de fazer o trabalho,” ela disse. “Eu queria atuar um pouco, mas espera aí, nunca pensei que fosse contracenar com Kevin Costner! Pensei ‘Vou fazer essa pontinha em alguma parte do filme e depois batalhar para subir.’ E de repente recebo esse roteiro, e digo, ‘Eu não sei. Isso é  meio – grande.’ Fiquei assustada.”
                O diretor Mick Jackson disse, “Era ensinar uma atriz a cantar ou, como foi com Whitney, ensinar uma cantora a atuar. Sua vida como diva do pop significa que tudo se ajusta as suas exigências, o que é totalmente diferente de gravar um filme. Quando ela deu uma olhada na agenda das filmagens, a primeira coisa que disse foi, ‘Não sou uma pessoa diurna.’”
                Mas ela era uma veterana, e ela se jogou no papel com determinação e concentração. Ela queria que desse certo. Ela precisava de sucesso depois de todos os desastres que tinham acontecido a ela no último ano. Todos estavam dizendo que seu maior problema era Bobby Brown. Boatos estavam circulando de que ele estava com ciúmes de Kevin Costner e com medo que Whitney levasse seu papel “a sério demais” e se apaixonasse pelo belo astro do cinema.

“Isso é besteira,” Whitney zombou. “Eu não entrei nesse filme querendo me apaixonar por Kevin Costner. Eu já estava apaixonada por Bobby. Sendo ele meu noivo, conversei com ele sobre o filme e deixei que lesse o roteiro. Em alguns momentos ao longo do caminho, ele realmente disse, ‘Bem, como essas cenas vão ser feitas? Quanto você vai estar envolvida nisso?’ e daí por diante. Mas Bobby me conhecia e confiava em mim. Eu não estava no filme para estar com um símbolo sexual. Não tinha nada a ver com sexo. Bobby estava confortável com isso. Deve haver confiança entre os dois. Acho que Bobby e eu temos isso.”

domingo, 25 de agosto de 2013

Ilustrações de Good Girl, Bad Girl

Ilustrações de Good Girl, Bad Girl



Os Irmãos Ammons: Craig, Kevin, Lee (fundo), 
Darrell nelson (frente)

(Acima) Whitney e seus pais, John Houston e Cissy Houston

(À direita) Cissy e a filha Whitney em um momento de orgulho em 1980 


(À esquerda) Whitney Houston, Kevin Ammons, e Robyn Crawford 
(coleção pessoal de Kevin Ammons)
(Abaixo) Uma família feliz: Whitney, Bobby, e sua adorável filha Bobbi

(Acima) Whitney e Clive Davis, empresário musical em 1990
(À esquerda) Jermaine Jackson, que fez um dueto com Whitney 
na novela As The World Turns


(Do lado oposto) Whitney no Grammy de 1986

(Acima) Robyn Crawford, "amiga íntima" de Whitney
(À direita) Robyn Crawford no Aeroporto de Tampa na Flórida


(Acima) Whitney e seu irmão, Michael
(À esquerda) Michael Houston (irmão de Whitney) e Kevin Ammons
(coleção pessoal de Kevin Ammons)

(Do lado oposto) Whitney Houston e Bobby Brown em um jantar de gala 
para a Fundação T.J. Martel em 1995

sábado, 24 de agosto de 2013

Capítulo 7: Um Sujeito Durão

7

Um Sujeito Durão


Cheguei a Norfolk, Virginia, no dia 30 de março, um dia frio e chuvoso. Regina tinha ido pra lá alguns dias antes para ficar com Whitney enquanto ela ensaiava. Regina estava esperando por mim no aeroporto. Ela veio voando pelo saguão e literalmente se jogou nos meus braços, me abraçando e beijando. Um motorista de limusine estava com ela, e ele pegou a minha bagagem e eu automaticamente me ofereci para ajudá-lo. Estava acostumado a carregar minhas próprias bolsas, mas Regina falou ríspida e rapidamente, “Esse é o trabalho dele, não o seu!”
Nós encostamos em frente ao Omni Hotel. Dezenas de adolescentes se acotovelavam nas calçadas segurando cartazes e fotografias do novo grupo New Kids on the Block. Regina disse que eles também estavam se apresentando em Norfolk e que estavam hospedados no mesmo andar que nós.
No dia seguinte fomos a um shopping e fizemos algumas compras antes de nos encontrarmos com Whitney. Eu estava uma pilha de nervos. Eu queria conhecê-la há algum tempo. Já tinha a ouvido no viva-voz inúmeras vezes, derramando o seu coração para Regina. De acordo com Regina, Whitney estava interessada em ouvir o meu grupo e tinha dito a ela que não via a hora de me conhecer. Regina já tinha me contado tantas histórias que eu já não tinha certeza se o que ela estava dizendo era verdade, mas eu acreditei nela porque queria muito acreditar nela. Toda a minha vida tinha sonhado em ser um astro, e se eu sabia que alguém podia me ajudar a tornar esse sonho real, esse alguém era Whitney Houston.
Whitney estava checando o som quando eu e Regina entramos, e eu fiquei perplexo com o quanto ela era linda pessoalmente. Todas as fotos que já tinha visto dela eram impressionantes, obviamente, mas nenhuma delas fazia jus a sua pele fantástica. Seus olhos dançavam com inteligência e travessura quando ela olhou para mim e disse, “Então esse é o Kevin, de quem eu ouvi falar tanto. É um prazer finalmente conhecê-lo.”
“O prazer é todo meu,” eu lhe assegurei.
Também conheci Robyn Crawford, de quem eu tinha ouvido tanto falar. Ela estava vestindo um terno trespassado e sapatos masculinos. Seu cabelo estava cortado curto, estilo militar, e ela não usava maquiagem nenhuma. Seu rosto era bonito com traços finos, mas ela parecia sombria e hostil e raramente tirava os olhos de Whitney. Ela me deu uma rápida olhadela de cima a baixo, sua expressão dura, e depois me dispensou.
Assistimos ao ensaio, depois saímos para jantar, e em todo o tempo que Regina ficou tagarelando, eu só pensava em Whitney. Nunca tinha visto um corpo como o dela. Era esbelta e esguia e ainda voluptuosa e sensual.
Quando chegamos para o show aquela noite, Michael Houston me perguntou se eu poderia me sentar próximo a sua mãe, Cissy, e ficar de olho nela. Ela estava com uma perna engessada e ele estava come medo que algum fã excessivamente zeloso pudesse tropeçar nela. Então lá estava eu, no centro da primeira fila, quando Whitney subiu rapidamente ao palco. Ela estava deslumbrante. Sua pele, seu cabelo, seu sorriso – tudo nela brilhava como se ela tivesse sido acesa por dentro.
A platéia de mais de três mil pessoas, a maioria veteranos do Golfo e suas famílias, assoviavam e batiam os pés, e aplaudiam de pé. Ela encarou o destino, agarrou o microfone, e numa voz forte, pura e potente, cantou em alta voz o hino nacional – a cappella. Foi como se ela estivesse dando careta para os críticos que a tinham censurado por gravar o hino no Super Bowl.
 O show foi espetacular, e a certa altura, Whitney desceu na primeira fila e tirou uma criança do colo de um militar. Ela sentou o menino em um banco, cantando para ele, e ele ficou olhando em volta; ele era novo demais para ficar sentado sozinho naquele banco alto. Até hoje eu não sei o que deu em mim para assumir o problema, mas eu me inclinei na frente do palco e pedi para Whitney descer o menino do banco e devolvê-lo ao seu pai. Quando eu me sentei ao lado de Cissy, expliquei que estava com medo que a criança caísse. Ele não era grande o bastante para sentar-se sozinho e Whitney podia ser processada.
Cissy disse que não tinha pensado nisso e me agradeceu e apertou com carinho a minha mão. As pessoas traziam bouquets de rosas para Whitney, e eu me perguntava por que os seguranças não interceptavam as flores para ver se elas continham alguma coisa que pudesse fazer mal. Sei que posso parecer um pouco paranóico, mas há muita gente doente por aí. É preciso apenas um maluco que queira ter o seu nome estampado nos jornais por matar uma celebridade.
Depois do show, me desculpei com Whitney por ter sugerido que ela tirasse o menino do banco e expliquei o porquê de ter feito aquilo. Ela ficou grata e me agradeceu pelo interesse. Também mencionei que ela não deveria pegar as flores diretamente dos fãs, mas tê-las checadas por seus seguranças primeiro. “Nunca se sabe quando um maluco imbecil pode ter uma pistola escondida no bouquet, pronto para acabar contigo,” eu disse, e seus olhos se arregalaram de medo. Toda grande estrela tem um pouco de medo quando se mistura às multidões, e Whitney não era exceção. Além do mais, ela vinha recebendo muita crítica negativa nos últimos anos e estava compreensivelmente cautelosa. 
Regina sussurrou pra mim, “Pare com isso, Kevin. Não é sua função cuidar da Whitney.”
Mas Whitney ficou grata e me disse isso. Ouvi dizer mais tarde que cabeças rolaram por seus seguranças não terem feito o seu trabalho como deveriam.

Na manhã seguinte, Whitney foi convidada de honra em um brunch oferecido pelos executivos da HBO para mostrar sua estima e para agradecer por seu sensacional desempenho. Sua família e amigos também foram convidados. Sentei-me próximo a Regina, Cissy e John Houston, e a secretária de Whitney, Sylvia. John estava tentando se chegar a Cissy, fingindo ser ainda um casal feliz, e todas as vezes que ele se inclinava mais para perto para falar com ela, eu via um olhar de puro ódio se espalhar pelo rosto de Cissy. Ela ainda estava se sentindo humilhada por seu caso com Peggy Griffith e pelo fato dela ter sido uma empregada, pelo amor de Deus! E a empregada de sua própria filha ainda por cima.
Cissy sabia que estavam cochichando por suas costas e sentindo pena dela, e ela não suportava isso. Ela também sabia que amigos e parentes estavam rindo do quanto era ridículo um homem de setenta anos com uma mulher de vinte e nove. Peggy era mais nova que seus dois filhos e só um ano mais velha que Whitney. Isso fez Cissy sentir-se uma tola, e ninguém escapava ileso depois de ter feito Cissy de boba.
Eu a vi pegar um garfo da mesa e virar-se para encarar John. Seus dentes estavam cerrados, sua expressão maligna. “Sai de perto de mim,” ela sussurrou, “ou enfio esse garfo no seu olho!”
John rapidamente se afastou da mesa, e um dos executivos da HBO segurou o seu braço e perguntou quando Whitney ia descer. O executivo disse que sua esposa era uma das maiores fãs de Whitney e estava louca para conhecê-la. Nós já estávamos esperando por cerca de uma hora, e todos na mesa estavam ficando impacientes. John fez um sinal chamando Sylvia e pediu a ela que ligasse para o quarto de Whitney e que dissesse a ela que todos a estavam esperando.   
O olhar no rosto de Sylvia só podia ser descrito como de puro terror e apreensão. Todos que trabalhavam para Whitney sabiam que ela arrancaria a cabeça de quem ousasse incomodá-la antes das três horas da tarde. Relutantemente, Sylvia fez a ligação de um dos telefones do hotel, e eu soube mais tarde que Robyn atendeu e imediatamente começou a esbravejar e gritar por ter sido acordada tão cedo. Sylvia disse que estava ligando a pedido de John e que todos estavam esperando que Whitney descesse para comer. A essa altura, Whitney pegou o telefone e disse a Sylvia para ouvir atentamente e “diga ao meu pai exatamente o que lhe disser, palavra por palavra, não mude uma vírgula, entendeu?”
Eu estava olhando para o rosto de Sylvia e ela provavelmente queria estar em qualquer outro lugar no mundo exceto na sala de jantar do Omni Hotel. Ela parou perto da cadeira de John, de cabeça baixa, e disse a ele, “Whitney não vai descer. Ela disse que a HBO pagou pra ela se apresentar, e não para tomar café da manhã com eles. E se alguém tiver algum problema com isso, ela lamenta muito!”
Não preciso nem dizer que a atmosfera na mesa mudou e todos mal falaram entre si até o fim do café da manhã. Regina voltou para o nosso quarto e eu fui até John para conversar. Ele parecia bastante infeliz parado ali sozinho, e assim que me aproximei, ele começou a vociferar.
Ao invés de ficar bravo com Whitney por tê-lo humilhado, ele atacou os executivos da HBO. “Veja só todos esses brancos filhos-da-puta esperando pra conhecer minha garotinha. Eles estão se lixando pra ela e pra todo mundo. O que importa pra eles é usá-la pra fazer dinheiro pra eles.”
Ele estava espumando de raiva, e era mais do que só o fiasco na sala de jantar. Esse homem tinha uma raiva muito profunda dentro de si. “Os brancos filhos-da-puta sempre nos usaram, os negros,” ladrou ele. “Queria jogar uma bomba nessa cambada de inúteis.”
Como cheguei a conhecê-lo melhor nos próximos anos, descobri que sua raiva vinha de seu fracasso como promotor e gerente musical. Ele queria o estrelato de Cissy não só por ela, mas por si mesmo. Ele se julgava outro Berry Gordy, Clive Davis, ou Quincy Jones, e quando não aconteceu, ele ficou amargo e ressentido. Uma coisa sobre os Houstons, todos eles têm mais ego que qualquer um que tenha conhecido.  
No dia seguinte, eu tirei muitas fotos de todos ligados ao show, assim como algumas de Whitney comigo. Mal podia esperar para contar a minha família tudo sobre minha viagem e mostrar a eles fotos minhas de amizade com Whitney Houston. Ela era calorosa e amiga comigo, passando seu braço por cima dos meus ombros e sorrindo dentro dos meus olhos. Uma vez a ouvi dizer a Robyn, “Ele é grande, não é? Talvez eu devesse contratá-lo como meu guarda-costas.”
Quando cheguei em casa e desfiz as malas, descobri que meu rolo de filme havia sumido. Isso só podia significar uma coisa: Regina. Ela não queria que eu tivesse fotos de Whitney e eu juntos. Perguntei a ela e ela me disse que tinha deixado o meu junto com o dela numa Walgreen e que pegaria quando estivessem prontas. Eu tinha usado a câmera dela, mas comprado o meu próprio filme, portanto achei que fazia sentido. Perguntei pelo filme várias vezes nas próximas três semanas, e ela sempre me dizia que ainda não tinham ficado prontas. Sabia que ela estava mentindo, por isso na vez seguinte em que estive em seu apartamento, procurei e encontrei meu filme escondido no fundo do seu armário do banheiro. Não adiantou nada. Eu simplesmente peguei de volta e fiz várias cópias.

Depois que conheci Whitney e sua família, fui incluído na maioria de suas atividades. Michael e eu nos tornamos bons amigos e freqüentemente relaxávamos juntos, fumando maconha, e falando de mulheres. Seu meio-irmão, Gary Garland, estava sempre por perto também, mas eu não gostava dele tanto quanto gostava de Michael. Um dia nós três decidimos ir ao ginásio fazer uns arremessos, mas antes de sairmos, estávamos sentados em minha casa, fumando maconha e bebendo algumas cervejas. Michael tirou um pacote do bolso e perguntou se eu tinha bicarbonato de sódio e se podia pegar uma colher. Eu cresci nos conjuntos e conhecia o ritual para fumar cocaína. Eles me ofereceram um pouco, mas eu passei. Eu só fumei maconha.  
 Depois de levá-los de volta ao hotel, decidi subir com eles para mais um trago. Assim que entramos no lobby, vimos Whitney e Cissy saindo do bar, e uma olhada para o rosto de Whitney nos disse que ela estava furiosa. Ela veio batendo os pés até o Michael e disse, “Onde você esteve e por que não me disse aonde ia?”
“Estávamos no ginásio,” Michael disse. “Disse a Regina onde estaríamos.”
“Não dou a mínima,” Whitney gritou. “Você responde a mim. Se fizer essa merda novamente, não vai mais trabalhar pra mim!”
“Então me demita,” Michael gritou de volta, tão irritado quanto sua irmã. Ambos tinham temperamento explosivo, e uma coisinha de nada os detonava. Ele deu as costas, dizendo, “Vai se foder, Whitney,” e ela lhe deu uma bofetada no rosto.
“Sua vadia,” Michael gritou, e desferiu-lhe um soco no rosto – e ela lhe deu outro de volta! Eles estavam mano-a-mano, distribuindo socos como dois homens, e Cissy só assistia.
Depois de mais alguns socos, Cissy deu um passo a frente, levantou sua bengala, e bateu na cabeça de Michael. Com bastante força. “Já chega,” ela disse. “Michael, não machuque minha menina.”
Michael pegou seu boné do chão e subimos ao seu quarto para fumar um pouco de maconha. Ele me disse, “Ela é minha irmã e eu a amo, mas, Kevin, aquela vadia é maluca!”

O especial da HBO foi um enorme sucesso. Whitney recebeu excelentes críticas como não recebia há muito tempo e as vendas de seus discos estavam animadoras, especialmente do seu single do hino nacional. Sua turnê de shows de 1991 para o lançamento de I’m Your Baby Tonight estava programada para começar em abril com Lexington, Kentucky, uma das primeiras paradas. Ela estava viajando com sua equipe usual de cerca de vinte pessoas, incluindo, é claro, Robyn Crawford. Michael foi junto com guarda-costas de sua irmã, e havia outro, Dave Roberts. Depois de fazer o check-in no hotel, eles decidiram ir à corrida de cavalos antes do jantar. Quando voltaram ao hotel, o mundo desabou.
Estava no meu salão no dia seguinte quando o jornal chegou e eu não acreditei no que estava vendo. Um artigo dizia algo do tipo, “Superstar Whitney Houston envolvida em pancadaria em Lexington, Kentucky!” Declaradamente, Whitney, seu irmão e guarda-costas, Michael, e vários outros membros de seu grupo se meteram em uma briga de socos com fãs no Radisson Plaza Hotel. Eu corri para Regina para descobrir o que ela sabia a respeito, e ela me atualizou. Ela já tinha falado com Whitney naquela manhã, mas estava no aguardo de mais notícias.
Regina disse que eles estiveram no Red Mile Harness Racetrack e estavam se divertindo e bebendo. Contudo, quando começaram a perder dinheiro, seu humor mudou. Michael fica um pouco ríspido quando bebe, e o fato de ter perdido dinheiro na corrida só fez piorar. Quando eles voltaram ao hotel, continuaram com a bebedeira, assim como com o mau humor. A luta entre Evander Holyfield X George Foreman estava sendo transmitida pela TV, então todos decidiram assisti-la no lounge do hotel e esquecer o azar na corrida. Eles só queriam ficar sozinhos, mas foi impossível depois que avistaram Whitney. Correram para cima dela, pedindo autógrafos e se acotovelando, tornando impossível assistir a partida de Box.
Seu guarda-costas, Dave Roberts, que é britânico, educadamente pediu a todos que se retirassem, explicando que a Srta Houston gostaria de relaxar e assistir à luta; poderiam conseguir seu autografo na noite seguinte, após o show. Aparentemente eles eram fãs imbatíveis ou simplesmente mal-educados, porque se recusaram a sair e continuaram a infernizá-la. Finalmente Dave Roberts levantou-se e disse em voz alta, “Caiam fora, todos vocês! Srta Houston não quer ser incomodada agora.”
Os buscadores de autógrafos saíram, mas foram logo substituídos por outro grupo de fãs, e novamente Dave gritou, “Caim fora!” Espectadores dizem que o ânimo de Whitney estava ficando mais arrogante e o de Michael também.
Estava bastante barulhenta aquela noite com mais homens que mulheres no lounge, e estavam todos comendo a linda cantora com os olhos, tentando atrair sua atenção. Três homens estavam sentados numa mesa próxima e conversando bastante alto, rindo e cutucando uns aos outros, observando Whitney. A bebida estava fluindo e os homens se ofenderam ao serem mandados “cair fora” por um maricas inglês, então eles resmungaram alguns insultos e Michael e Dave revidaram na mesma moeda. Os homens então fizeram alguns insultos raciais e algumas observações sexualmente explícitas. Whitney já tinha agüentado o bastante. Ela tinha tentado ignorá-los e assistir à luta, mas eles não a deixavam em paz. Ela disse, “Venham, vamos sair daqui. Podemos assistir à luta em nossos quartos.”
Cada um foi para o seu lado, e Whitney, Michael, e Robyn pegaram o elevador para subirem para os seus quartos. Quando eles saíram do elevador no seu andar, os mesmos três homens estavam a sua espera, insistindo que Whitney desse um autógrafo seu. Michael pediu a eles “saiam da frente,” mas os caras estavam bêbados e agressivos, e um deles desferiu um soco em Michael. Ele revidou, derrubando o cara no chão. Os colegas do cara entraram na briga e insultos racistas começaram a voar. Um deles chamou Whitney de “esnobe cadela negra,” e foi então que Michael perdeu a cabeça. Ele não ia deixar um bando de brutamontes caipiras ofenderem sua irmãzinha.
O pau estava comendo. Eram três contra um, e mesmo com Michael dando conta, Whitney arremeteu. Ela pulou nas costas de um dos homens e começou a socá-lo, depois deu um soco certeiro na mandíbula de outro, tirando ele de cima de Michael.  Todos estavam gritando e esbravejando, socando e rolando no chão. As portas começaram a se abrir de cima a baixo no longo corredor. Os hóspedes do elegante, luxuoso Radisson Plaza Hotel não podiam acreditar no que viam. A elegante e linda superstar Whitney Houston, xingando como um marinheiro e distribuindo socos que deixariam George Foreman orgulhoso! Um dos hóspedes diz tê-la ouvido gritar, “Você vai morrer, seu filho da puta!”
Alguém chamou a polícia e eles apartaram e acalmaram os ânimos dos brigões. Mas ainda não tinha terminado. O trio de homens entrou com uma ação contra Whitney e Michael, acusando a ambos de agressão física.
Eu estava no apartamento de Regina quando Whitney ligou e contou a ela sobre o confronto. Ela estava rindo e dizendo que tinha dado “uma boa surra, querida.” Ela disse que não ia deixar aqueles “caipiras filhos da puta” machucar seu irmão. Michael estava bastante ferido. Além dos esperados cortes, arranhões, e contusões, ele teve uma concussão e alguns tendões distendidos. É um milagre que Whitney não tenha se machucado no vale-tudo, mas ela saiu dessa ilesa. A única coisa que a estava preocupando era a ameaça de um processo judicial, e ela perguntou a Regina como lidar com isso. Regina não achou que fosse algo com que se preocupar, mas eu sim. Disse a Whitney que se os homens a processasse, que ela os processasse também. “Sobre quais acusações?” ela perguntou.
“Invasão de privacidade,” eu disse, “assim como agressão física, lesão corporal e difamação. Afinal de contas, era o seu nome que estava estampado em todos os jornais.”
                Somente alguns dias mais tarde, Whitney e Michael receberam uma intimação para comparecerem no tribunal, e Whitney entrou com uma ação. Mas ela deu um passo à frente, declarando publicamente que os três homens tentaram suborná-la, exigindo $420.000 dólares dela ou eles venderiam a história para a imprensa. Isso não era verdade. Ela tinha inventado a história para parecer melhor, mas então, Whitney sempre foi um pouco dramática.
                A imprensa teve um prato cheio. Dificilmente passava um dia sem que um relato aparecesse em algum jornal sobre a batalha dos Houstons e como a diva do pop tinha voltado à sua juventude difícil, se encarregando dos bandidos que estavam espancando seu irmão. Ficou tão feia a coisa, que John Houston convocou uma coletiva de imprensa para dizer que estava “muito orgulhoso  por Michael ter mantido sua dignidade e profissionalismo, não respondendo aos insultos dirigidos a Whitney.”
                Ele continuou, “Em face dessa limitação, estes homens astutamente concluíram que a única forma de alcançar uma situação que atrairia a atenção da mídia sensacionalista que desejavam seria atacando Michael fisicamente sem motivo ou provocação. Estou igualmente orgulhoso de minha filha, Whitney, que não deixou que qualquer preocupação com a carreira a impedisse de proteger seu irmão. Expondo-se a danos físicos em potencial, ela arriscou-se a danos ameaçadores à sua carreira.”
                Whitney disse a Regina que ficou muito orgulhosa de seu pai por apoiá-la publicamente. Eles vinham se estranhando desde que ele havia fugido com sua empregada, mas isto pareceu aproximá-los. Whitney estava arrasada que a imprensa continuasse a caçá-la, a empurrar microfones no seu rosto e perguntar sobre a briga em Kentucky. “Como isso pode ter acontecido?” ela me perguntou ao telefone um dia. “Isso é tão ruim. Como Michael e eu pudemos nos deixar levar dessa forma?”
                Disse a ela que todos nós sabíamos que Michael tinha o pavio curto, especialmente quando estava bebendo, e que Whitney e seu irmão entrarem no que era basicamente um bar “de brancos” era um convite à encrenca. Imaginei que provavelmente não houvesse muitos negros lá naquela noite, não em Lexington, Kentucky.
                “Tentamos ignorá-los,” Whitney disse. “Só queríamos tomar uns drinks e assistir à luta, mas eles não nos deixavam em paz.”
                O advogado do condado de Fayette, Norrie Wake, pesquisou o incidente e entrevistou testemunhas de ambos os lados da balburdia, finalmente determinando que o campo de Whitney era o mais confiável. Ele declarou que eles haviam sido injustamente provocados e que “evidencias contraditórias teriam impossibilitado a condenação.”
                O fato dos três homens terem ido direto à imprensa com sua história provava que estavam buscando qualquer notoriedade que pudessem colher deste lamentável incidente.
                “Gostaria que estivesse lá, Kevin,” Whitney me disse. “Os desgraçados teriam morrido!”

                Quando a turnê chegou a Miami, Whitney pediu para Regina ver se eu poderia ir junto com eles como seu guarda-costas. Michael estava viajando com ela, assim como seu meio-irmão mais velho, Gary, mas por alguma razão ela me queria junto também. Eu fiquei entusiasmado e concordei rapidamente. Quando cheguei a Flórida, Whitney me deu meu próprio macacão I’M YOUR BABY TONIGHT, que todos que trabalhavam para ela vestiam, e também uma jaqueta de cetim feita sob medida com o meu nome bordado.
                Tão empolgado como estava por estar viajando com Whitney Houston e experimentando todas as vantagens de estar com uma superstar, eu logo percebi que essa era a turnê do inferno. Vi de antemão o que estava acontecendo nos bastidores, e não era uma visão muito agradável. Havia tanto estresse e tanta discussão o tempo todo que não via como Whitney conseguia fazer um show decente.
                Todos estavam usando drogas e bebendo e pulando de cama em cama. Bobby Brown ficava ligando para Whitney o tempo todo, e isso deixava Robyn com tanto ciúme que ela dormia com os dançarinos do grupo e várias vezes até mesmo com Michael só para irritar Whitney. Quaisquer dançarinos que sobravam eram passados entre Michael e Gary. A ameaça de violência sempre espreitava logo abaixo da superfície. Era um caos total.
                A turnê do show estava em sérios apuros por conta da imprensa negativa e da atitude de Whitney, mas seguiu mancando com Whitney dando apenas apresentações indiferentes. Ela sempre se atrasava, às vezes até duas horas, e era recebida por uma multidão vaiando de raiva. Para adicionar insulto à injuria, ela não se dava ao trabalho de desculpar-se ou sequer inventar uma desculpa por seu atraso; ela simplesmente não dava a mínima. Ela inda tinha muitos fãs leais, contudo, e quando eles tentavam se aproximar para pedir autógrafos, ela os congelava em seus calcanhares com o olhar mais frio e intimidador imaginável. Alguns de seus fãs resmungavam para a imprensa que “Whitney Houston é uma verdadeira vaca pessoalmente. Ela trata os seus fãs como lixo. Nunca mais vou comprar um vídeo seu novamente.”
               
                Em agosto de 1991, minha família finalmente teve uma chance de conhecer Whitney quando ela fez um show no World Music Center em Tinley Park, Illinois. Ela conseguiu que minha mãe, meus irmãos e minhas irmãs tivessem assentos na primeira fila, e eu tive orgulho de fazer parte de sua equipe. Ela foi doce com minha mãe e fez a maior cerimônia com ela. Mamãe ficou encantada por conhecer uma estrela tão grande e eu fiquei grato a Whitney por ser tão gentil.

                Mil novecentos e noventa e um foi o ano mais horrível na vida de Whitney, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Como a Rainha Elizabeth uma vez falou sobre a família real, “Foi um annus horribilis” (um ano horrível). Whitney começou a chamar o seu pessoal na Nippy, Inc. de “a Família Real,” então quando ouviu as observações da Rainha Elizabeth na TV, ela concordou 100 por cento. Ela me disse uma vez, “Tem tanta apunhalada pelas costas e mentiras e inveja e intriga acontecendo ao meu redor, me sinto uma dos Windsors!”
                Ela estava estressada e, sem dúvida, preocupando-se cada vez mais com a queda nas vendas dos ingressos para os seus shows. Alguns shows foram na verdade cancelados por falta de procura, mas a Família Real continuava a mancar assim mesmo.
                A voz de Whitney já não era mais a mesma de antes. Ela estava rouca e um pouco falhada e não conseguia mais alcançar aquelas notas altas e limpas que uma vez tinham sido sua marca registrada.  A imprensa reportou que ela estava sofrendo de um “problema na garganta,” mas eu sabia qual era a real razão. Ela estava tragando aquela erva mais e mais enquanto sua vida desmoronava ao seu redor. Regina disse que Whitney sempre recorreu à maconha para relaxar, assim como todos na Família Real. Mas neste último ano ela começou a acrescentar uma pequena dose de cocaína à maconha antes de enrolar o baseado.
                Na turnê eu passei a conhecer Robyn melhor e, para minha surpresa, eu gostei dela. Tinha ouvido tantas coisas negativas a seu respeito de Regina e Cissy, que esperava um verdadeiro dragão, mas ela era legal. Ela se vestia como homem onde quer que fosse. Se ela não estava vestindo um terno masculino, ela aparecia de jeans e camisa masculina. E ela também usava sapatos de homens. Ela era loucamente apaixonada por Whitney e não se importava que soubessem. Ela me disse que vinha cuidando de Whitney desde quando eram adolescentes, quando as outras crianças mexiam com elas e as chamavam de “sapatas” e ela tinha tido que “dar algumas surras.” Ela tinha personalidade forte e era dominadora por natureza, então era normal para ela que protegesse a pessoa que amava.

                 Da Flórida nós viajamos para a Virginia, Nova Iorque, Filadélfia, Nova Jersey, Detroite, e Los Angeles. A essa altura eu já me sentia um velho profissional experiente e já sabia mais sobre Whitney Houston que jamais quis realmente saber. Esta senhora complexa tinha muitos lados, e eu era apresentado a cada um deles diariamente.
                No final de outubro de 1991, o Thirteenth Annual Black Achievement Awards ia acontecer em Los Angeles, e eu ia como convidado de Whitney. Ficamos no Westwood Marquis, e Whitney ligou, pedindo a Regina para ligar para o Bobby Brown e dizer a ele que ela tinha que ir ao ensaio e que encontraria com ele mais tarde. Depois de uma soneca e de uma ducha, fui ao teatro assistir ao ensaio. Todas essas estrelas de quem tinha ouvido falar ou admirava estavam lá: Patti LaBelle, Dionne Warwick, Gladys Knight, Della Reese, Mario Van Peebles, Jasmine Guy, e Wesley Snipes, entre outros. 
               Quando estávamos deixando nosso quarto de hotel a caminho do show naquela noite, Regina disse, “Kevin, por favor, não tente socializar com nenhuma das celebridades, está bem? A segurança vai ver que você é um joão-ninguém e vai te botar pra fora.” Fiquei chocado e magoado, mas mantive minha boca fechada, recusando-me a deixar que ela estragasse essa noite mágica pra mim.
                John Houston estava esperando do lado de fora, sozinho, e perguntou se queríamos uma carona para o teatro. Quando entramos no lindo Lincoln Town negro, Regina sussurrou, “Será que Nippy sabe que pagou pelo carro do Papai hoje à noite?”
                Sentei-me com John e Regina me beijou e disse, “Tenho que ir fazer o meu trabalho. Vejo você nos bastidores depois do show.”
                Mario Van Peeble apresentou Patti LaBelle, e quando ela entrou no palco, ela olhou direto para mim e me deu um largo sorriso. Ela cantou seu novo lançamento, “Somebody Loves You, Baby,” e durante todo o número ela manteve contato visual comigo. Então ela fez o inimaginável: ela desceu e fez um sinal para que eu me juntasse a ela no palco. “Vamos lá, querido,” ela disse. “Venha dançar comigo.” Dançamos juntos e a plateia gritava e aplaudia e Patti disse, “Cante comigo, querido,” e eu cantei.
                Que barato isso deu. Sentei-me na minha poltrona para assistir ao restante do show, mas não consegui me concentrar.  Tudo em que conseguia pensar era naqueles poucos momentos mágicos no palco.
                Como descrito antes, fui aos bastidores onde Patti elogiou minha voz e perguntou se eu tinha uma representação. Caso não tivesse, ela disse, estaria interessada em agenciar minha carreira. Eu disse, não, não tinha, mas do nada, Whitney veio correndo e disse, “Sim, ele tem. Eu vou gerenciar sua carreira.”
                Patti e eu conversamos por mais alguns minutos, e ela perguntou se me veria na Festa de Comemoração e eu disse, “Claro, estarei lá,” mas Whitney tinha outra coisa em mente.  
                “Quero que você e Regina venham a minha casa para uma reuniãozinha,” ela disse. “Quero que conheça Bobby.”
                Preferia bem mais ter ido à festa, mas sabia que não devia dizer nada. Quando Whitney fazia uma convocação, o melhor era aparecer!”
                Só nós cinco estávamos ali: Robyn, Whitney, Bobby, eu, e Regina. Whitney vestiu um pijama de seda e nós apenas relaxamos, bebemos cerveja, fumamos maconha, e fofocamos a respeito do show. Bobby também era diferente do que tinha ouvido falar dele. Ele era pé-no-chão e inteligente e maduro para sua idade. Gostei bastante dele, mas ficou claro quem não gostou nem um pouco. Robyn ficou sentada ali a noite toda, encarando ele.  

                A Família Real estava a caminho de Londres. Nunca tinha saído dos Estados unidos antes, então estava empolgado. Contudo, não viajei com Whitney. Juntei-me à turnê mais tarde. Já tinha estado fora tempo demais e queria ver minha esposa e filhos antes de me aventurar no exterior. Na Inglaterra, peguei um taxi no Heathrow Airport e parti rumo a Chelsea Harbor, parando no caminho para comprar rosas para Regina e Whitney.
                Regina me encontrou no hotel e tivemos tempo apenas para um rápido rala-e-rola antes de nos encontrarmos com os outros. Whitney estava agendada para falar no Picadilly Park a um grupo de crianças portadoras do vírus da AIDS. Os empregados permanentes estavam todos lá com Whitney quando Regina e eu saímos do elevador: Michael e sua namorada, Robyn, Dave Roberts, Sylvia, e Smitty, o motorista. Nos empilhamos em uma van e partimos, todos rindo, fazendo piadas, e nos divertindo. Tinha sentido falta de estar com eles. Whitney estava conversando comigo e Robyn ficava interrompendo até que finalmente Whitney virou-se para ela e disse, “Cala a porra da boca antes que eu te bote pra fora daqui!”
                Eu abafei um riso, achando que ela estava brincando, mas ela não estava rindo. “Eu estou falando sério, Kevin,” ela disse. “Eu vou dar uma surra nessa vadia e largá-la no acostamento. Pergunte para ela o que aconteceu ontem nos pedalinhos.”
                “Hah,” Robyn bufou. “nada aconteceu nos pedalinhos e você sabe muito bem.”
                “Sua mentirosa de merda,” Whitney gritou. “Sabe muito bem, porque eu te dei uma surra e te fiz voltar andando para o hotel!”
                Robyn encarou e resmungou, “Nós duas batemos, está bem?”
                Eu ainda não estava acostumado ao linguajar de Whitney. Ela xingava como algum tipo vulgar do gueto. Não acho que ela era capaz de falar uma frase sem usar a palavra fuck em algum lugar. E então, em público, ela vestia a conduta de senhora refinada tão facilmente quanto colocar um vestido por cima da cabeça, repentinamente tornando-se a própria jovem que tinha sido criada na igreja. Era um contraste e tanto.  
                  Fomos recebidos no parque por vários policiais, que nos conduziram ao palco, e Whitney agarrou minha mão, me pedindo para ficar próximo a ela. Havia crianças em toda parte, gritando, “Whitney! Whitney! Whitney!”
                Ela entrou correndo no palco, comigo logo atrás, e começou o seu discurso, dizendo às crianças o quanto ela os amava e como todas elas estavam em suas orações todas as noites. Ela disse que a força e o amor de Deus estariam com eles nesses tempos difíceis, e que sempre lembrassem que Deus os amava e que estava olhando por eles. Ela então pulou do palco e estendeu os braços e as crianças se achegaram, engolindo-a. Ela estava chorando e abraçando e beijando-os enquanto chamavam o seu nome, e eu fiquei realmente comovido. Pensei, Uau, ela realmente ama de verdade essas criancinhas! Dezenas de fotógrafos fervilhavam em redor, tirando fotos do adorável rosto marcado por lágrimas de Whitney.
                Ela então se virou e fez um sinal para mim e eu peguei sua mão e a ajudei a subir de volta ao palco. Ela ainda estava sorrindo e acenando, mas baixinho ela disse para mim, “Me tira daqui, para longe dessas crianças mal-cheirosas e de bundas bolorentas!” Olhei fico para ela e seus olhos estavam secos; as lágrimas tinham sumido completamente.
                Mais tarde no jantar estávamos conversando e ela me disse que eu a fazia lembrar do Bobby Brown em muitas coisas. “Vocês dois são gente boa,” ela disse. “Posso ver o ouro nos olhos de vocês. Vocês são verdadeiros.” Ela perguntou qual era o meu signo, e quando eu disse a ela que era aquário, ela disse, “Bobby também. Quando é o seu aniversário?”
                “Cinco de fevereiro.”
                “Só pode estar brincando. Esse é o dia do aniversário do Bobby também. Não é de admirar que me lembre tanto ele.” Ela disse que era leonina e que aquário era o seu signo do amor.
                Na noite seguinte enquanto Whitney estava se apresentando, eu perguntei a Robyn o que ela achava do Bobby Brown, e ela bufou e disse que ele era um punk (rebelde) – e que não era bom o bastante nem para enxugar os pés de Whitney.

                    Não estava tão certo disso. Tinha visto certo brilho nos olhos de Whitney quando ela falava dele, e tinha um pressentimento de que ligaria para ele quando voltássemos aos Estados Unidos. E então as portas do inferno seriam abertas.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Capítulo 6: Os Problemas de Whitney

 6

Os Problemas
de Whitney

Enquanto meus irmãos e eu estávamos ensaiando para a nossa apresentação no Drury Lane Theater, Regina continuou a me ligar de quatro a cinco vezes por dia e me convidar para sair. Eu estava passando diversas noites por semana em seu apartamento, jantando com ela, bebendo champagne, e conversando até amanhecer o dia. As conversas geralmente começavam com planos sobre como ela me ajudaria com minha carreira, mas depois de algumas garrafas de champagne, nós acabávamos nessas sessões de amasso selvagem.
                Eu era o que costumava colocar um fim nisso, dizendo que tinha que ir para casa. Eu amava minha mulher, Marsha, e sempre tinha honrado os meus votos matrimoniais, então me pegar beijando e tocando essa outra mulher, me fazia sentir muito culpado. Eu sempre trabalhei à noite, assim não foi difícil explicar para Marsha onde eu estava. Ela simplesmente supôs que eu estivesse no trabalho.
                Toda vez que eu estava no apartamento de Regina, ela recebia muitas ligações de Cissy ou Whitney. Do lado de Regina da conversa, era óbvio que Cissy estava se queixando ou de Whitney ou de Robyn.  E quando Whitney ligava, ela se queixava de tudo. Ela dizia que estava muito infeliz, muito cansada de toda a atenção da mídia, de estar na estrada. Ela queria sossegar, respirar, e ter tempo para gastar um pouco do dinheiro que vinha ganhando. Ela ficava no telefone com Regina durante horas, enquanto eu ficava sentado lá ouvindo.
                “Ela é uma jovem muito perturbada,” Regina me disse. “Ela quer uma vida normal, mas também quer ser uma superstar. Ela tem esse negócio com a Robyn Crawford, mas quer ter filhos e uma família. Por um lado, ela é durona, mas permite que Cissy e Robyn mandem nela. Talvez seja por isso que ela está começando a mandar nas pessoas agora, para ter um pouco de controle em sua vida. Eu só sei que ela tem problemas grandes e vai ter que lidar com eles antes de encontrar a felicidade.”
                Embora seu novo álbum já tenha chegado à platina duas vezes e seus shows estivessem completamente esgotados, os críticos continuavam a atacá-la. Eles comparavam seu álbum de estréia com este último e reportavam que “as vendas eram decepcionantes,” e alguns alegavam que ela não deveria ter tentado “endurecer,” que gostavam mais quando ela era “homogeneizada.” Curiosamente, eram os mesmos críticos que a haviam detonado no passado por ser “homogeneizada demais.”
                “Não tem como agradá-los [a mídia],” Whitney dizia. “São perversos comigo. Estão dispostos a comerem a minha carne.”
                “Ela simplesmente não sabe lidar com a imprensa,” Regina disse. “Ela é petulante e arrogante e despreza os repórteres, e está sempre atrasada, pelo menos uma hora, às vezes duas horas. Ela entra toda emproada cercada de quase um batalhão impenetrável de guarda-costas e assistentes. Depois se admira quando a chamam de diva.”

                Regina tinha me dito que o Ammons Brothers Singing Group apresentaria quatro músicas na noite do Drury Lane Theater. Nós fizemos uma vaquinha e compramos ternos de gripe feitos sob encomenda e estávamos prontos. Nós também compramos uma mesa bem próxima ao palco para os nossos amigos e familiares. Quando chegamos, descobrimos que Regina havia revendido nossa mesa. Eu fiquei furioso, mas ela não se intimidou e apressou-se a tentar encontrar outra mesa. Nós tivemos que nos dividir e eu acabei sentado no bar no fundo do teatro. Fiquei desconcertado porque tinha dito a minha família que aquela era a minha grande noite. Depois veio o golpe seguinte.
                “Eu sinto muuuito, querido,” Regina disse docemente, pressionando-se contra mim. “Mas vocês só vão ter tempo para uma música hoje à noite.” Ela deu alguma vaga explicação sobre escalas e outras coisas, mas o ponto de partida era “uma música” – depois de termos trabalhado tanto. Eu fiquei passado, mas segurei minha onda. Esta poderia ser ainda a minha chance e eu não ia estragá-la.
                Os convidados estavam jantando antes de Natalie Cole e das outras estrelas chegarem, de forma que o Ammons Brothers Singing Group veio a ser o número de abertura. Um tipo de aquecimento antes do show “de verdade” começar. Não tenho nem certeza se eles nos ouviram, havia tanto barulho de talheres retinindo e gente conversando e garçons correndo pra cima e pra baixo. Natalie Cole não estava nem nos assistindo. Ela estava em seu camarim jantando. Também, outra banda estava se preparando bem atrás das cortinas enquanto estávamos cantando. Nunca tinha sido tão humilhado em toda a minha vida.
                Quando me sentei com minha mãe, tentando explicar a ela o que tinha acontecido, Regina chegou dançando. Ela estava vestindo um terno de camurça verde-limão e estava extraordinária. Ela fez o maior estardalhaço com minha mãe, e depois me pegou pela mão e me puxou para a pista de dança. Era difícil ficar zangado com ela quando ela ligava o seu charme, especialmente quando ela ficava sussurrando no meu ouvido, me dizendo como eu estava fabuloso, e gemendo que queria fazer amor comigo ali mesmo. Ela estava se esfregando em mim, me beijando longamente a boca. De vez em quando eu percebia de relance o rosto da minha mãe, e ela estava em choque. Eu não sabia o que fazer. A essa altura eu já sabia que Regina era mestre na arte da manipulação e que ela mentiria mesmo quando a verdade lhe servisse melhor, mas eu havia sido fisgado. Eu a queria tanto quanto ela havia dito que me queria. Nós ainda não tínhamos ido pra cama, muito embora eu certamente estivesse mais que pronto e disposto.
                Enquanto Regina estava fora da cidade por alguns dias, eu pensei bastante sobre o nosso relacionamento. Eu decidi que se eu fosse continuar a vê-la, eu contaria a ela sobre minha mulher e filhos. Ela ligou pra se desculpar por não ter entrado em contato antes, porque tinha estado com Cissy noite e dia. Então ela me perguntou se estava sentado, pois tinha uma coisa pra me contar.
                “Eu nunca quis ficar com um homem tanto quanto quero ficar com você, Kevin,” ela disse. “Já sonhei em fazer amor com você milhares de vezes, mas tenho medo que não vá mais me querer depois que vir o meu corpo.” Ela depois explicou, em detalhes, tudo o que tinha acontecido a ela durante a cirurgia do câncer de mama. Não só os médicos tinham moldado novos mamilos de carne tirada de sua vagina, como também haviam removido ossos de sua costela para sustentar as paredes do seu estômago. Ela disse que era uma confusão de cicatrizes e que tinha “um corpo infernal,” e que ela não conseguia nem olhar-se no espelho, então ela só podia imaginar o que eu ia achar. Ela disse que a cirurgia a tinha deixado tão arrasada e com a auto-estima tão baixa que ela chegou a pensar em suicídio.
               “Então eu conheci você,” ela disse, “e comecei a me sentir como uma mulher novamente, mas precisava lhe explicar tudo para que soubesse no que estava entrando.”
                Eu fiquei chocado, mas também senti admiração por ela – e eu ainda a queria. Eu disse a ela, “Vai ser preciso mais que isso pra me afugentar. Quando chegar em casa, provarei a você.”
                Ela estava quase chorando quando disse, “Obrigada, Kevin, você nunca vai saber o que fez por mim.” Ela disse que estaria em casa na sexta-feira, e foram os três dias mais longos da minha vida.
                Mandei entregar quatro dúzias de rosas e vários cartões em seu apartamento na hora de sua chegada, e ela me ligou imediatamente, rindo e chorando, e me pediu que fosse para lá. Ela não conseguia esperar para me ver.
                Fomos ao Pops For Champagne, um pequeno restaurante romântico com jazz ao vivo e ótima comida, depois voltamos ao seu apartamento. Caímos nos braços um do outro no minuto em que a porta se fechou atrás de nós, nos beijando loucamente, e ela ficava repetindo, “Você tem certeza, Kevin? Tem certeza, querido?”
                “Tenho certeza,” eu disse, “Tenho certeza, Regina. Está tudo bem, querida.” Me sentei no sofá enquanto ela foi se trocar, e quando ela saiu do banheiro vestindo um leve roupão branco, me perguntei se estaria realmente tudo bem. Esperava que pudesse lidar com isso e que minha expressão não evidenciasse nenhum choque ou repulsa. Ela ficou de pé na minha frente e deixou cair o roupão, e eu fiquei chocado. Ela estava certa, seu corpo era coberto de cicatrizes e levou alguns segundos para eu me recobrar. Eu a tomei nos braços e ela começou a chorar, depois nos beijamos e ficou  tudo bem novamente. Eu não via mais as cicatrizes. Eu via uma mulher linda e desejável com um amor tão puro brilhando dos seus olhos que me surpreendia.
                Mais tarde, quando estávamos deitados juntos na cama, percebi uma fotografia em seu criado-mudo, dela com Michael Jackson, e eles estavam se beijando. Este é um item de colecionador, eu pensei, Michael beijando uma mulher. Ela pulou para fora da cama, voltando com um álbum cheio de fotos de Michael, Whitney, Robyn, e dela mesma. Ela disse que haviam sido tiradas na casa de Michael, e tinha uma de Whitney e Robyn juntinhas numa carruagem. Ela disse que o único jeito de chegar ao rancho Neverland de Michael era de helicóptero, e depois ela me contou uma história que me fez estremecer. Ela disse que uma vez Whitney tinha ido ao rancho com Robyn para presenteá-lo com alguma premiação, e de repente, bem na frente dos seus olhos, as bochechas dele começaram a se mover.
                “Ele tinha feito um implante para aumentar as maçãs do rosto, e ele simplesmente se soltou e escorregou por seu rosto, vindo parar em seu queixo.” Regina estava rindo e rolando na cama. Ela me mostrou mais fotos de celebridades, e quando eu vi uma dela com Luther Vandross parecendo bem íntimos, eu perguntei se ela já tinha tido um caso com ele.
                Ela riu e revirou os olhos. “Dificilmente, querido. Não faço o seu tipo.”
                Eu ainda tinha muito a aprender sobre Regina, mas naquela noite nada importava, porque estava me dando conta de que tinha me apaixonado por ela. No dia seguinte, ela me enviou pelo menos umas vinte e cinco mensagens, e todas as vezes que eu retornava, ela sempre dizia a mesma coisa: “Só estava pensando em você. Eu amo você, Kevin Ammons.”
                Algumas semanas mais tarde, no apartamento de Regina, eu vi um jornal na mesinha de centro com uma grande manchete em negrito: “Whitney Houston esperando um bebê de Eddie Murphy!” li rapidamente: “Whitney Houston e Eddie Murphy estão se casando esta primavera. E se isso não for o bastante para abrandar os boatos sobre a preferência sexual de Houston por mulheres, Murphy está ‘atando o nó,’ porque ela está grávida de um bebê seu.”
                “Todo mundo está sempre dizendo que Whitney só sai com Eddie para parar os boatos de que ela é gay e que está realmente tendo um caso com Robyn,” Regina disse. “Mas ela é louca pelo Eddie. Só me pergunto se ele sente o mesmo por ela.”

                Notícias de que uma guerra estava se formando no Golfo Pérsico empurraram Eddie e Whitney para fora das primeiras páginas, enquanto os americanos se uniam para mostrar seu apoio ao Presidente Bush e seu patriotismo. Isto aconteceu em janeiro de 1991, e com o Super Bowl chegando, organizadores precisavam de alguém extra-especial para cantar o hino nacional. Quem melhor que a diva mais popular da América, Whitney Houston?
                Clive Davis ficou estático. Sua cliente ia se apresentar diante de mais de 100 milhões de telespectadores, e ele planejava tirar proveito disso. Embora “The Star-Spangled Banner” fosse ser cantado ao vivo, Davis trouxe um caminhão de equipamentos eletrônicos sofisticados para certificar-se de que teria uma fita com qualidade de lançamento da voz de Whitney. Davis percebeu que para faturar com a gravação de Whitney ele teria que manter segredo a respeito de seu plano até depois do Super Bowl, então o que a platéia viu não foi exatamente o que estavam levando. Eles não sabiam que Whitney estava sendo gravada quando ela ficou de frente para eles, com as duas mãos segurando o microfone enquanto entoava a letra familiar. Sua voz nunca esteve mais forte ou mais pura enquanto ecoava com emoção. Ela estava prendendo toda a atenção de forma assombrosa, e naquele momento ela capturou o coração da América. O Patriotismo estava em alta já que nossos rapazes e moças se preparavam para ir para a guerra, e Davis queria assegurar-se de que eles partissem com o som da interpretação de Whitney do hino nacional em suas mentes e em seus corações.
                Whitney não decepcionou Davis – ela causou profunda admiração em todo o mundo e todos os repórteres com um computador a elogiou. Dizia o New York Times: “Uma orquestra inteira acompanha a provocante e sinuosa voz da Srta Houston, tornando o hino nacional voluptuoso; à última nota juntou-se o som de jatos F-16 sobrevoando o estádio.”
                Com essa única canção, Whitney conseguia mudar a opinião pública a seu favor. Ela não poderia ser tão ruim assim, os críticos fundamentavam, se ela conseguia imprimir sinceramente tanta paixão em nosso hino nacional. Davis anunciou que sua gravadora, Arista, planejava mandar cópias gratuitas da gravação para todos os militares que estavam servindo no Golfo. Quando pressionado pelos fãs a lançar também nos Estados Unidos, Davis agiu como se essa tivesse sido uma idéia maravilhosa e por que ele não tinha pensado nisso? No entanto, alguns repórteres descobriram que Davis tinha feito planos elaborados para uma gravação antes do Super Bowl, e perguntaram se ele estava explorando a guerra para fazer fortuna com a apresentação do Super Bowl.
                “De forma alguma,” Davis respondeu, sentindo-se ofendido; prometendo em seguida que toda venda do single e do vídeo seria revertida em doações para uma instituição de caridade “a ser escolhida pela Srta Houston.” Ele era americano e tão patriota quanto o cara ao lado.
                Ele fez jus a sua promessa, doando mais de meio milhão de dólares ao American Red Cross Gulf Crisis Fund assim como à Whitney Houston Foundation for Children. Que esse ato patriótico de caridade também colheu enorme publicidade para Whitney e seu novo álbum era apenas uma coincidência.   Quando o single foi lançado, “The Star Spangled Banner” estava de um lado, “America the Beautiful” do outro. Foi direto ao primeiro lugar nas paradas. O único outro momento da história em que isso ocorreu foi quando Kate Smith gravou “America the Beautiful,” uns quarenta anos antes.
                Críticos e fãs semelhantemente estavam aturdidos com o sucesso deste single, e a popularidade de Whitney bateu todos os recordes. Era quase como o comecinho de sua carreira, quando ela não parecia errar em nada. Whitney Houston era tão boa que podia transformar em hit uma canção que havia sido escrita em 1814 – há 176 anos!
                “Ela pode ter sido a queridinha da América,” Regina me disse mais tarde, “mas você tinha que ter ido ao Super Bowl. Você não ia acreditar no arranca-rabo entre ela, Robyn e Cissy.” Eu a pressionei para obter detalhes e ela me disse:
                “M.C. Hammer apareceu com sua comitiva e ele e Whitney se destacaram do grupo e estavam conversando e rindo, e Robyn ficou uma fera. Quando estavam deixando o camarote, Robyn agarrou Whitney pelo braço e a puxou para um canto e começou a lhe dar um sermão a respeito de flertar com Hammer. Ela estava muito irritada com essa história de Whitney estar repentinamente saindo com todos esses caras e tentando fazer as pessoas pensarem que elas não estavam mais juntas. Acho que alguns dias antes disso, Bobby Brown havia mandado quatrocentas rosas para Whitney, e Robyn ficou espumando de ciúmes. Eu a ouvi gritar alguma coisa como era melhor que Whitney não a humilhasse nunca mais daquele jeito, e Whitney puxou seu braço de volta e disse, ‘Vai pro inferno!’
               “Com isso, Robyn levantou o braço e deu uma bofetada no rosto de Whitney. Havia um grupo de pessoas em volta e todos ficaram olhando, mas em vez de revidar, Whitney começou a chorar e saiu correndo. Eu a segui e estávamos juntando nossas coisas, prontas para sair, quando ouvimos um tumulto. Cissy estava confrontando Robyn e ela estava cuspindo fogo e gritava, ‘Que merda é essa de colocar as mãos na minha filha?” Em seguida – poft! – ela lhe acerta um soco no queijo! E depois mais um e Robyn caiu no chão, mas Cissy continuou a socá-la e a chutá-la, gritando, “Eu vou te matar, sua cadela estúpida!”
                “Espectadores separaram a briga, tirando Cissy de cima de Robyn, enquanto eu apressava Whitney pra fora dali, de volta para o nosso quarto de hotel. Ela estava chorando muito e nós conversamos por cerca de duas horas, comigo tentando acalmá-la. O telefone não parava de tocar mas Whitney me disse para não atendê-lo. Então a porta se abriu e Robyn entrou correndo, chorando histericamente e dizendo a Whitney o quanto ela se arrependia e ficou repetindo, ‘Eu te amo, querida, eu simplesmente te amo demais!’ Whitney a tomou nos braços e elas começaram a se beijar e chorar, e eu muito discretamente apaguei as luzes e deixei o quarto.”
                Regina me disse que uma das condições de se trabalhar para Whitney era nunca dizer uma só palavra sobre Robyn a ninguém. Para garantir seu silêncio, Whitney tinha dado a Regina muitos presentes caros: uma Mercedes-Benz dourada, uma cruz cravada de diamantes, um cartão de crédito corporativo, uma conta de cartão telefônico, brincos de diamante, viagens de avião gratuitas, um salário de $125.000 dólares por ano, e um apartamento luxuoso.

                Meu caso com Regina tinha realmente esquentado a essa altura, e eu estava passando quase todas as noites com ela. Uma noite estávamos deitados na cama por volta das 03h30min da manhã quando o telefone tocou. Ela atendeu, dizendo, “Oi, Nippy. E aí?”
                Depois de desligar, ela me disse que Whitney tinha perguntado o que ela estava fazendo acordada àquela hora; ela devia estar fazendo “a coisa selvagem” e queria saber com quem.
                “Eu precisava de um pouco,” Regina disse rindo, olhando para mim. “Kevin é teimoso pra burro mas eu o amo de verdade... Está bem, eu apresento vocês da próxima vez que nos virmos. Você vai gostar dele.”
                Whitney disse a Regina que tinha ligado para avisar que ela receberia um pacote por Fedex na manhã seguinte, e Whitney queria certificar-se de que tudo corresse como planejado.
                Eu ainda estava lá quando a encomenda chegou e vi quando Regina a abriu. Continha fotografias de Whitney e Randall Cunningham, zagueiro do Philadelphia Eagles, tiradas pelo fotógrafo de Whitney, Marc Murphy Bryant. Regina foi instruída a vendê-las para os tablóides ou “dá-las de graça,” Whitney disse a ela. “Não me importa o que faça, simplesmente consiga que sejam publicadas.”
                Whitney ainda estava arrastando um vagão por Eddie Murphy, e queria dar o troco por ele a ter largado. Ela achou que se ele a visse com outros caras, ele ficaria com ciúmes e voltaria com ela. Whitney teve um breve lance com Randall em sua casa em Antigua e ele foi fisgado, dizendo a Regina que estava apaixonado por Whitney. Ele ligava para Regina e ela o colocava no viva-voz para eu ouvir. O cara parecia chateado e não entendia por que Whitney não falava com ele. Ele insistia que Regina pedisse a Whitney para ligar pra ele, e Regina prometia que Whitney ligaria – depois Regina revirava os olhos pra mim e dizia, “Ele é um tremendo nerd.”
                Regina ligou para Whitney e disse a ela que as fotografias tinham acabado de chegar, e Whitney pediu que as repassasse para os jornais, mas que se certificasse de que ninguém soubesse que vinham da Nippy, Inc. Então Regina me pediu que as enviasse para os tablóides uma vez que ninguém me ligaria a Whitney. Eu concordei, mas disse a ela que ao invés de dá-las, por que nós não as vendíamos? O Enquirer e o Star e o Globe pagariam uma boa grana por elas.
                “Vou te dizer uma coisa, querido,” ela disse. “Se você conseguir vendê-las, você pode ficar com o dinheiro.”
                A caminho de casa, eu parei na loja de alimentos Jewel e comprei uma cópia de todos os jornais que tinham, depois criei uma história para acompanhar as fotos. Liguei para todos os editores, deixando recados dizendo que era guarda-costas de Whitney Houston e que tinha fotos exclusivas dela e de um novo amor secreto, Randall Cunningham, e estava disposto a vendê-las. Dentro de uma hora, meu telefone não parava de tocar. Disse a eles que queria $20.000 dólares e disseram que isso não seria um problema, contanto que eu tivesse os negativos. O Sunday Mirror de Londres, Inglaterra disse que enviaria um mensageiro para me encontrar e verificar as fotos.
                Liguei para Regina com as novidades. Ela vibrou, mas me disse que precisava conversar com alguém e que me ligaria de volta imediatamente. Ela ligou, mas era uma conversa de três vias com alguém que se chamava Simone, e Regina me pediu para explicar tudo – o que eu havia dito ao jornal, o telefone deles, etc. – que Simone era uma boa negociadora e ela iria assumir a negociação a partir dali.
                Eu fiquei furioso. Eu tinha feito todas as ligações e proposto uma história sólida e crível, então eu não ia deixar que outra pessoa recebesse o crédito. Disse isso a Regina e estava pronto pra pular fora quando ela se desculpou e disse, “Não, não, querido, tudo bem. Você cuida da negociação.”
                Eu marquei de encontrar o mensageiro em frente ao Fairmont Hotel, e insisti que ela me acompanhasse. Ela não queria ser vista.  No caso, eles poderiam ligá-la a Whitney; então, ela esperou no meu carro enquanto eu entrei para conversar com o cara.
                Logo que entrei no lobby, este camarada veio até mim, estendendo sua mão. “Você é Kevin Ammons?” ele perguntou com um sotaque britânico. Disse que era e fomos direto aos negócios. Dei a ele as fotos e os negativos. Ele tirou da bolsa uma lupa e estudou cada uma, depois me pediu para contar-lhe novamente como eu as tinha obtido. Disse que era segurança de Whitney Houston e que tinha tirado as fotos e queria vendê-las: “Apenas diga se está interessado.” Ele disse que estava, mas que o jornal só podia pagar dez mil, não vinte. Quando eu pedi vinte, já esperava que viessem com uma oferta de dez ou quinze.
                Disse que teria que checar com minha “esposa,” que estava do lado de fora no carro, e voltaria em seguida. Estava empolgado quando me inclinei na janela do carro para dar um beijo em Regina, dizendo a ela que estava fechado; tínhamos dez mangos esperando por nós. Para minha surpresa e choque totais, ela disse, “Aquele playboyzinho está cheio de merda, homem! Ele provavelmente nem trabalha para o jornal e só quer pôr as mãos nas fotos para que possa vendê-las por cinqüenta mil! Qual o nome dele afinal?” Eu disse e ela retrucou, “Ele que se foda! Vou dá-las antes de deixar que esse filho da puta se aproveite de você.”   
                Disse a ela que não precisava dessa merda. “Agora cai fora do meu carro que eu preciso ir trabalhar.”
                Na manhã seguinte ela me ligou, pedindo desculpas, falando manso, e disse que tinha decidido que ia mandar as fotos de volta para Whitney. Ela não queria que uma burrada dessas nos atrapalhasse. Eu amoleci e tudo voltou ao normal até duas semanas mais tarde quando eu recebi uma ligação do editor do Sunday Mirror, ligando de Londres. Ele queria saber se havia alguma verdade no boato de que um romance estava surgindo entre Whitney e Bobby Brown. Ele disse que estaria disposto a pagar muito mais do que havia pagado pela história com o Randall Cunningham. Demorou um segundo para eu descobrir o que deve ter acontecido, mas eu calmamente perguntei se ele poderia me passar por fax uma cópia da história, já que eu não tinha visto.
                Meti a cópia do fax no bolso, peguei as chaves do carro e fui para o apartamento de Regina. Ela ficou surpresa por me ver, mas me pediu para entrar e eu disse, “Você tem alguma coisa pra me dizer?”
                “O que quer dizer?” ela perguntou, genuinamente intrigada. Nunca ocorreu a ela que eu descobrisse a história porque o Sunday Mirror era publicado em Londres.
                Mantive minha calma e perguntei novamente, “Regina, você tem certeza de que não tem uma coisa pra me contar?”
                Ela balançou a cabeça, franzindo a testa. “Não. Não sei o que quer dizer.”
                “Muito interessante. Acabei de receber uma ligação do editor do Sunday Mirror, e ele me agradeceu por deixar minha ‘esposa’ vender a eles a história de Whitney Houston.”
                Ela deu um salto e gritou, “Ele é um mentiroso! Eu não vendi história nenhuma pra ninguém.”
                “Sente-se antes que eu a derrube.” Eu peguei o telefone e fingi fazer uma ligação para Londres.
                “Desligue o telefone, querido,” Regina disse, e começou a chorar. Ela fez o seu numerozinho de fala-mansa comigo novamente e desculpou-se por mentir pra mim. Ela disse ter dividido o dinheiro entre sua tia e a madrinha de Whitney, Ellen (tia Bey) White, porque achava que eu não precisasse tanto quanto elas. O cheque tinha sido nominal a Evette Bassette, assistente de Regina, e ela também tinha dado mil dólares a Simone. Ela estava chorando e agarrando-se à minha mão, em seguida, começou a me beijar e me puxou para o quarto e melhorou tudo da única maneira que sabia.
                Eu sabia que devia ter caído fora naquele momento, mas estava apaixonado por ela. E também, não queria estragar o que achava que seria minha chance em uma carreira como cantor. Ela tinha me dito centenas de vezes que tinha contado a Whitney tudo sobre mim, e logo que Whitney tivesse um tempinho, ela queria ouvir o Ammons Brothers Singing Group. Ela disse que Whitney poderia me conseguir um contrato com a Arista Records porque ela os mantinha vivos e elas a deviam muito.
                Alguns dias depois, eu estava sozinho no apartamento. Regina tinha ido ao mercado e eu atendi ao telefone e ouvi esta voz familiar pedindo para falar com Regina. Reconheci Whitney imediatamente e disse que Regina não estava, mas que ficaria feliz em dar o recado.  
                “Você deve ser o Kevin,” ela disse. “Já ouvi falar muito de você e mal posso esperar para conhecê-lo.” Sua voz parecia gutural e sexy, um pouco rouca. Regina tinha me dito várias vezes que Whitney fumava tanta maconha misturada com cocaína que ela estava desenvolvendo pólipos na garganta e tinha sido advertida por seu médico a parar. Já tinha estado próximo a usuários de maconha e drogados minha vida toda e reconheci aquela rouquidão imediatamente. Mas não estava pensando nisso no momento; estava muito emocionado por estar falando com Whitney Houston.
                Isso foi em março de 1991, e Whitney estava agendada para se apresentar em um show especial para as tropas que estavam voltando do Golfo. Seria um especial da HBO chamado “Welcome Home, Heroes” e aconteceria na Estação Naval de Norfolk na Virginia no dia 31. Whitney pediu a Regina que me convidasse. A princípio, Whitney não estava muito animada para fazer o show, mas ofereceram-lhe “milhões de dólares,” Regina disse, e Whitney mudou de idéia. Regina me disse que Whitney estava sob muita pressão, pois Robyn a estava magoando muito por causa de Bobby Brown. E também, porque seu pai, John Houston, tinha dado uma escapada com sua empregada de vinte e nove anos de idade, Barbara Peggy Griffith, de Trinidad. Whitney ficou passada e demitiu a mulher na hora. Ela se recusava a falar com seu pai e disse a Regina, “Ele tem idade para ser avô de Peggy, pelo amor de Deus!”

                Regina colocava Whitney no viva-voz e ficava ouvindo ela chorar. Ela parecia estar tão só e infeliz. Regina dizia que ela devia se livrar de Robyn, encontrar um cara bacana, e ter alguns filhos. Regina era paciente com ela, ouvindo-a durante horas, confortando e acalmando-a, dizendo que tudo ficaria bem.